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Casa de fados

Março 26, 2014

– Ouve esta, tenho uma boa história para uma curta-metragem.

– Conta lá.

– Um tipo magro, cabelo desgrenhado, roupa suja e gasta, entra numa casa de fados para comer. Senta-se e pede os melhores pratos, bons vinhos, uma boa sobremesa. Depois desta bela refeição sente-se reconfortado. Não se sente feliz, mas reconfortado. Chama o empregado e diz-lhe que precisa de falar com o proprietário da casa. Para quê, pergunta o empregado com má cara, pensando que quer reclamar do serviço. Não tenho dinheiro para pagar a refeição, diz o tipo magro. Quer arranjar problemas, é? Entretanto o proprietário apercebendo-se de algo aproxima-se da mesa e pergunta o que se passa. Não tenho dinheiro para pagar a refeição, mas posso cantar uns fados e ficamos quites. O dono da casa lembra-se que o fadista daquela noite tinha avisado que ia chegar atrasado e lá acaba por aceitar. O tipo magro canta o primeiro fado e a sala bata palmas de admiração. Ao segundo fado as palmas batem com mais força. Ao terceiro as pessoas choram, não querem acreditar no que estão ouvir. Aquela voz não é humana, arrepia a alma, cai fundo nos sentimentos.

– É só isso?

– Uma vez perguntaram a Hitchcock, após uma cerimónia qualquer, se ele já estava a preparar o próximo filme. Ele disse que sim. E qual é a história perguntou o interlocutor. Ele respondeu que “víamos um pára-quedista aterrar no meio da noite num descampado. Já em terra, tira o pára-quedas, abre um buraco, enterra-o e caminha pela noite dentro”. Só isso? perguntou o outro. “Sim, até agora é tudo o que tenho”, disse Hitchcock. Mas eu tenho mais.

Entretanto as pessoas na rua desconhecendo aquela voz aproximam-se da porta da casa de fados. Após uns minutos, são já umas dezenas. Um deles mais afoito, saca do telemóvel e começa a filmar, mas o tipo magro quando o viu, interrompe a cantoria, dispara a correr pela sala até à rua, arranca-lhe o telemóvel da mão, atira-o ao chão e parte-o em mil bocados. Depois disto pergunta ao dono da casa se já se considera pago pela refeição. Este diz que sim, mas quando se preparava para perguntar o nome ou se queria continuar a cantar, o tipo magro vira-lhe as costas e sai porta fora.

– E depois?

– Passaram-se meses e nada mais se sabia sobre aquele desconhecido. Já poucas pessoas se lembravam sequer do rosto. Apenas a voz, aquela voz, tinha ficado na memória. Então, certo dia, alguém pensou reconhecer aquele tipo magro que deambulava pelas ruas. Cabelo desgrenhado, roupa suja, olhar no chão. O que chamava a atenção era a constante paragem que ele fazia unicamente à porta das casas de fado. Olhava lá para dentro, parecia reflectir e continuava a andar. Até que resolveu entrar numa casa mal afamada, com pouca gente e pediu para comer. Escolheu os melhores pratos, as melhores bebidas, a melhor sobremesa. A casa como era pequena tinha como único empregado o proprietário. Após aquele belo repasto, sentindo-se reconfortado, pergunta ao dono da casa se pode cantar um ou dois fados. O dono da casa mira-o de cima a baixo e responde com má cara “nesta casa já não se canta fado há muitos anos, desde a morte da melhor fadista de toda a cidade. A minha mulher”. O tipo magro diz-lhe que não tem dinheiro para a refeição, mas que cantaria como forma de pagamento. Na sala estavam mais três ou quatro pessoas. O proprietário, por alguma razão qualquer, talvez a saudade de ouvir um fado naquela sala com tão belas memórias, lá aceita a proposta. O tipo magro começa a cantar o primeiro fado, à capela, claro, por falta de guitarristas. Ao segundo fado há movimento na rua. Aquela voz… A sala começa a encher até ao limite. Sem mais bancos para se sentarem, as pessoas encostam-se às paredes, as janelas viradas para a rua são abertas de par em par para que as pessoas no exterior também pudessem ouvir. Alguém já se preparava para sacar do telemóvel e gravar, mas os vizinhos do lado impediram-no. Desliga essa merda e já! O tipo magro cantou, cantou até de madrugada. Agradeceu ao dono da casa e partiu.

– Partiu para onde?

– Não sei, para já é tudo o que tenho.

3 comentários leave one →
  1. Março 27, 2014 17:58

    Estava aqui a ler isto e surgiu-me de repente uma imagem da rua como uma casa de fardos 🙂

    Gostei muito de ler isto, mesmo muito.

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    • Março 28, 2014 00:31

      Obrigado 🙂

      “Casa de fardos” 😀

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Trackbacks

  1. Andei a ficcionar acima das minhas possibilidades | No Vazio da Onda

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