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Caderno de citações

Março 13, 2021

Encontrei um caderno com citações. Não sei qual a fonte de nenhuma, fui apontando no caderno ao longo dos anos. Eis algumas:

«Sabes que só há repouso para o sofrimento quando se entra no primeiro dia dos dias sem ninguémRimbaud

«Limito-me a pôr em boa sintaxe o falar dos meus labregos.» Aquilino Ribeiro

«Dêm-me um herói e escreverei uma tragédia.» Scott Fitzgerald

«O prestígio não pode existir sem mistério, pois temos pouca reverência pelo que conhecemos bemCharles de Gaulle

«Se me perguntasses o que sinto teria dificuldades em responder. Fisicamente é uma espécie de lassidão, de desinteresse, de cansaço como antes da gripe ou de outra doença qualquer, como antes da morte. As pernas doem-me, pesadas, a pele tornou-se mais atenta ao frio e ao calor, à dureza ou à rigidez das coisas. Não me apetece nada, acho-me desconfortável por estar quieto mas achar-me-ia mais desconfortável se me movesse. Fico assim sentado, a olhar em frente, sem desejos, sem vontades, oco. Nem sequer estou triste. Apenas passividade e indiferençaAntónio Lobo Antunes

«A memória é indispensável para que o tempo não só possa ser medido como sentido.» José Cardoso Pires (De Produndis, valsa Lenta)

«O Adeus às Armas é o livro de alguém que fala com frieza porque arde de indignação e que tenta escrever com secura porque não quer chorarClaude Roy

«Há um ponto além do qual já não retorno. É esse ponto que temos de alcançar.” Kafka

«Do verdadeiro adversário passa para ti uma coragem infinitaKafka

«Quem diz que conhece a verdade está a mentir.» Kafka

“O Deus das Moscas”

Março 2, 2021

«O rapaz de cabelo alourado desceu os últimos palmos de rocha e encaminhou-se para a lagoa. Apesar de ter tirado a camisola da escola, que agora lhe pendia de uma mão, a camisa cinzenta colava-se-lhe à pele e sentia o cabelo pegajoso na testa. Em torno dele, a vasta cicatriz rasgada na selva ressumava calor. Avançava com esforço entre as trepadeiras e troncos quebrados quando uma ave, uma visão de tons vermelhos e amarelos, disparou para o céu com um clamor bruxuleante, logo depois ecoado por outro grito.
– Ei! – ouviu-se. – Espera aí!
O matagal numa das margens da cicatriz foi sacudido e uma saraivada de gotas de chuva percutiu as imediações.
– Espera um bocadinho – disse a voz. – Estou preso.»

O Deus das Moscas, William Golding (Trad. Manuel Marques, Ed. D. Quixote)

Anarco-burguês

Fevereiro 28, 2021

© MCS

Heróis

Fevereiro 28, 2021

Palavras de um ex-soldado republicano da Guerra Civil Espanhola:

“Pois sabe uma coisa? Na paz não há heróis, excepto talvez aquele indiano baixinho que andava por aí meio nu… E nem sequer ele era um herói, ou só passou a sê-lo quando o mataram. Os heróis só são heróis quando morrem ou os matam. E os heróis a sério nascem na guerra e morrem na guerra. Não há heróis vivos, jovem. Estão todos mortos. Mortos, mortos, mortos.”

Soldados de SalaminaJavier Cercas (p.166-167)

Verdades

Fevereiro 23, 2021

Um gajo habitua-se a pouquíssima gente na rua e pensa que vai custar muito quando se der o desconfinamento.

Oi?

Fevereiro 23, 2021

Tradutores de todo o mundo, uni-vos!

“… é um saxofonista de jazz americano gratuito.”

Russinskia

Fevereiro 16, 2021

Não sei falar qualquer língua eslava. Estive a ver o jogo do Benfica num canal russo, coisas da pirataria, e, por vezes, os nomes ficavam assim na voz do comentador: Gilberta, Otamendia, Franca Cervia, Grimalda e, o meu favorito, Pizzia. Parecia ballet russo.

Apre!

Fevereiro 16, 2021

«- Grande merda de cidade.
Perguntei-lhe porquê.
– Olha – disse e, com careta de profundo asco, apontou para uma placa que dizia: “Avinguda Lluís Pericot. Pré-historiador”. – Podiam ter posto à rua o nome de alguém que pelo menos tivesse acabado o curso, ou não?»

Soldados de SalaminaJavier Cercas (p.39)

Javier, hás-de ter muitos amigos…

Fevereiro 16, 2021

«Fui destacado para a secção de cultura, que é onde colocam as pessoas que não se sabe onde colocar.»

Soldados de Salamina, Javier Cercas (p.16)

“Soldados de Salamina”

Fevereiro 15, 2021

«Foi no verão de 1994, faz agora seis anos, que ouvi falar pela primeira vez do fuzilamento de Rafael Sánchez Mazas. Três coisas acabavam de me acontecer por essa altura: a primeira foi o meu pai ter morrido; a segunda foi a minha mulher ter-me abandonado; a terceira foi eu ter abandonado a minha carreira de escritor. Minto. A verdade é que, dessas três coisas, as duas primeiras são exactas, exactíssimas, mas não a terceira. Na realidade, a minha carreira de escritor não havia maneira de arrancar, de modo que dificilmente poderia abandoná-la. Mais justo seria dizer que a tinha abandonado recém-iniciada. Em 1989 tinha publicado o meu primeiro romance; tal como o conjunto de contos surgido dois anos antes, o livro foi recebido com notória indiferença, mas a vaidade e uma resenha elogiosa de um amigo daquela época aliaram-se para me convencer de que poderia chegar a ser romancista e de que, para o ser, o melhor era deixar o meu trabalho na redacção do jornal e dedicar-me totalmente a escrever. O resultado desta mudança de vida foi cinco anos de angústia económica, física e metafísica, três romances inacabados e uma depressão pavorosa que me prostrou durante dois meses numa poltrona, diante do televisor. Farta de pagar as facturas, incluindo a do enterro do meu pai, e de ver-me olhar para o televisor apagado a chorar, a minha mulher saiu de casa assim que comecei a recuperar, e eu não tive outro remédio senão esquecer para sempre as minhas ambições literárias e pedir a minha reintegração no jornal.»

Soldados de Salamina, Javier Cercas (Trad. Helena Pitta, Ed. Asa)

Amanhecer

Janeiro 31, 2021

“Even though I walk through the darkest valley, I will fear no evil, for you are with me”

Janeiro 31, 2021

© MCS

Desbloqueio chinês

Janeiro 30, 2021

Activei a função de desbloqueio facial de um aparelho electrónico de uma marca chinesa. Depois pedi a um familiar para experimentar. E não é que o cabrão do aparelho desbloqueou! Imagino a quantidade de desgraçados chineses que terão sido engavetados estando inocentes.

Legitimidade ferida

Janeiro 24, 2021

Se calhar alguém já fez as contas, mas ainda não as vi. Ora, tendo em conta os milhares de infectados só nos últimos dias, mais os seus familiares e contactos directos que deverão (ou deveriam) estar em quarentena, quantos milhares não poderão votar amanhã?

Sendo assim, o presidente eleito não vai ser o presidente de todos os portugueses, mas o presidente de todos os que puderam sair à rua.

Já vi eleições para a associação de estudantes com melhor aspecto democrático.

Confinamento

Janeiro 24, 2021

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A fenomenologia da luz

Janeiro 24, 2021

© MCS

Pendant

Janeiro 24, 2021

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Nuvens

Janeiro 24, 2021

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Presidenciais

Janeiro 24, 2021

Há uns dias vi pela primeira vez um bocadito da campanha presidencial na trebison. Resumo:

– Marcelo: nem se chateia com estas minudências (o corrector não conhece esta palavra; nabo), não enviou nadinha. Não tem tempo para insignificâncias. Fazer testes de zaragatoa ocupa-lhe o dia inteiro.

– Vitorino de Rans: fiquei a saber que também foi candidato às autárquicas, mas perdeu. Afinal o candidato do povo não teve os votos nem do seu povo. Às tantas só ganhou a freguesia de Rans porque tem uma família maior do que a do Carlos César.

– Tiago Mayan: pôs na sua campanha um amigo de longa data (há 25 anos) a elogiá-lo. Diz o amigo, “É um grande homem, alguém com quem podemos contar”. E depois ainda criticam o Carlos César?! São muito liberais, mas os testemunhos vêm dos amici. De seguida virá a famiglia. Antológico.

– O coiso fascista: num comício grita aos gritos gritando “Eu nunca, nunca, mas nunca me demitirei”. Então… nos debates não disse que se demitia se ficasse atrás da Ana Gomes? Apanha-se mais depressa um aldrabão do que um filho da puta. Quer dizer, apanha-se ao mesmo tempo.

Os outros não vi, mudei para o MacGyver.

O ano inicial inteiro e limpo

Janeiro 2, 2021

© MCS