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Uma subida divinal

Abril 16, 2011

Deve ter acontecido pela Páscoa, ou talvez não, como já aconteceu há vários anos, não me lembro. Lá ia eu todo porreiro da vida a caminho de casa quando, inesperadamente, ouço uma voz, “Por favor, jovem, (esta expressão…) dê aqui uma ajudinha.” É preciso dizer que eu caminhava por uma rua comercial em pleno período de férias, ou seja, havia muita gente na rua, logo, porquê eu? Como vi que era um senhor idoso lá me dirigi para o auxiliar. “Jovem, (outra vez, man…) ajude-me a levar esta escada ali para dentro.” Era um típico escadote doméstico, por isso, resolvi carregá-lo sozinho e segui por um corredor estreito logo atrás do senhor. O corredor terminava num espaço mais amplo onde dominava uma grande mesa, com um bela toalha bordada à mão (acho eu, já que não percebo um boi disso) e duas grandes velas. Bem, aqui comecei a achar estranho, que grandes velas! A parede do lado direito estava toda ela preenchida por, pasme-se, talha dourada e uma enorme estátua da N. S.ª de… qualquer coisa. Estava eu a apreciar este belo trabalho barroco quando oiço o tal senhor: “Não se importa de colocar esta coroa na cabeça da N.ª Sr.ª de… (não me lembro do nome).” “Claro que não”, respondi. Como podia recusar tal tarefa, afinal de contas não é todos os dias que temos a possibilidade de coroar uma Santa (João Paulo, ficas em segundo, porque agora quem tem o poder intemporal sou eu, ainda que temporariamente).

Dando início a esta santa tarefa, subo para o escadote e quando chego ao último degrau reparo que nem sequer estou perto dos pés da santinha. Com a coroa numa mão e a outra apoiada na talha dourada, disse ao senhor (não, não é esse, refiro-me ao tal idoso): “Não sei se está a ver, mas a escada parece-me um pouco curta.” Tenho dúvidas se ele percebeu a ironia, mas lá respondeu: “Olhe, apoie-se nessas reentrâncias e suba por aí acima”. Após uma análise exaustiva, que demorou para aí uns 5 segundos, para avaliação do percurso vertical a percorrer , inicio a escalada. A dada altura, como já não encontro nenhuma reentrância, paro para nova avaliação do percurso e, então, diz-me o velhote: “Pode pôr aí o pé à vontade.” O que era? Era uma toca pequerrucha onde colocam um santinho mais pequenino e, como havia um paninho todo bordadinho debaixo do santinho, estava com receio de o pisar e sujar. Mas tendo recebido autorização superior (ou seria inferior?) para o fazer, pimba, lá deixei a minha impressão pedonal no paninho. Após esta santa pisadela lá consegui colocar a coroa na N.ª Sr.ª de… a tal. E, verdade seja dita, até foi uma coroação bastante fácil, porque ela tinha um buraquinho no cocuruto onde a coroa encaixou divinamente.

Finda esta subida aos céus e respectiva acção divina, era hora de descer à terra. Foi neste momento que me senti abandonado pelos deuses, porque para subir todos os santos ajudam, mas para descer é o tanas. Quer dizer, acho que é ao contrário, mas agora não interessa nada. Quando subia conseguia ver onde apoiava as mãos e os pés, mas para descer já não é bem assim. É nestes momentos que dizem que a vida passa toda à nossa frente e, como tal, resolvi olhar para trás para ver o que se passava. Bem, então aqui deu-se o momento mais alto do dia (tinha de ser, né?). Quando olho para trás nem queria acreditar (pensando melhor, aquele era o sítio certo para acreditar) vejo que a igreja, quer dizer, felizmente era apenas uma capela, está praticamente cheia de fiéis e beatas à espera do início da missa. Estas estavam de boca aberta e olhos esbugalhados, com certeza mais preocupadas com os paninhos que pisei do que com a minha segurança. E pronto, ali estava eu, pendurado no altar que nem o homem-aranha a olhar para as beatas sentadas na fila da frente e a pensar: pelo menos rezai por mim, caraças, para que possa descer em segurança de forma a evitar atrasos na celebração da missa. Os pensamentos chegavam às carradas, lembrei-me de uma outra coisa: espero que esta talha dourada tenha sido restaurada há pouco tempo, caso contrário vou para os anjinhos com um bocado de rococó nas mãos. Também pensei num outro provérbio popular “Ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo”, mas achei melhor não ir por aí, nada de confianças que o momento era delicado. Foi então que tive uma ideia, já que estava cá em cima tão perto do Senhor (não, não é o idoso, é mesmo o tal, o original), lembrei-me de Lhe pedir a retribuição pelo favor que eu, qual bom samaritano, havia feito. “Ei, Senhor, e que tal dar aqui uma ajudinha? Não custa nada.” E, nesse aspecto, não tenho nada a apontar, foi impecável comigo, rapidamente desci e sem problemas. Tirando mais uma nódoa no paninho do santinho pequenino, foi uma descida limpinha.

Estando a são e salvo e em terra firme, perguntei ao velhote (o da escada), “Mais alguma coisa? Não há por aí um sino que queira trocar?” Mais uma vez acho que não percebeu a ironia e respondeu: “Muito obrigado pela ajuda, jovem, (grrr, se eu não estivesse dentro duma igreja, pá…).

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