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A contra-revolução: Vendeia (Bretanha)

Fevereiro 2, 2017
"Le Massacre de Machecoul", de François Flameng, 1884 @ Musée d'art et d'histoire de Cholet

“Le Massacre de Machecoul”, de François Flameng, 1884 @ Musée d’art et d’histoire de Cholet

«O aldeão tem dois pontos de apoio: o campo de que se alimenta e o bosque onde se oculta.
Dificilmente se pode fazer uma ideia do que eram as florestas bretãs; eram cidades. Nada mais surdo, mais mudo, e mais selvagem do que aqueles inextricáveis labirintos de espinhos e ramos, vastas matas, que eram jazigos de imobilidade e silêncio; não podia haver solidão na aparência mais morta e mais sepulcral; mas se se pudesse, subitamente e de uma só vez semelhante ao relâmpago, cortar as árvores, ter-se-ia visto bruscamente um formigueiro de homens.
Poços redondos e estreitos, mascarados por fora por tapumes de pedra e ramos verticais, depois horizontais, alargando-se debaixo da terra em forma de funil e indo ter a câmaras tenebrosas, eis o que Cambyse encontrou no Egipto e o que Westermann encontrou na Bretanha; ali foi no deserto, aqui na floresta; nas cavernas do Egipto havia mortos, nas da Bretanha havia vivos. Uma das mais selvagens clareiras do bosque de Misdon, toda furada de galerias e células onde se movia um povo misterioso, chamava-se a “grande cidade”. Outra clareira, não menos deserta por cima e não menos habitada por baixo, chamava-se a “praça Real”.
Esta vida subterrânea era imemorial na Bretanha. Em todos os tempos o homem ali andou em fuga diante do homem. Daí as tocas de répteis cavadas nas raízes das árvores. Datavam dos druidas e algumas destas criptas eram tão antigas como os dólmens. As larvas da lenha e os monstros da história, tudo tinha passado naquele negro país. Teutatés, César, Hoël, Neomenes, Geoffroy de Inglaterra, Alain mão-de-ferro, Pedro Mauclerc, a casa francesa de Blois, a casa inglesa de Monfort, os reis e os duques, os nove barões da Bretanha, os juízes dos Grandes-Dias, os condes de Nantes em guerra com os condes de Rennes, os salteadores, os larápios, as grandes companhias, Renato II, visconde de Rohan, os governadores em nome do rei, o “bom duque de Chaulnes” que enforcava os aldeões por baixo das janelas de madame de Sevigné, no século XV os açougues senhoriais, nos séculos XVI e XVII as guerras religiosas, no século XVIII os trinta mil cães educados na caça ao homem; neste tripudiar medonho o povo tinha tornado o partido de desaparecer.
Sucessivamente os trogloditas para fugirem aos Celtas, os Celtas para fugirem aos Romanos, os Bretões para fugirem aos Normandos, os huguenotes para fugirem aos católicos, os contrabandistas para fugirem aos guardas do fisco tinham-se refugiado primeiro nas florestas, e depois debaixo de terra. Recurso dos animais. É ao que a tirania reduz as nações. de há dois mil anos, o despotismo debaixo de todas as suas formas, a conquista, o feudalismo, o fanatismo, o fisco perseguia essa desgraçada Bretanha, numa espécie de batida inexorável que só cessava de um modo para começar por outro. Os homens enterravam-se.
O terror que é uma espécie de cólera, estava feito nas almas, e as covas feitas nos bosques quando rebentou a Revolução Francesa. A Bretanha revoltou-se, achando-se oprimida por esta libertação à força. Engano habitual dos escravos.

Noventa e Três, Victor Hugo (Trad. Maximiano Lemos Júnior, Ed. Portugália, p. 167/168)

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