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Cada um contrai a sua loucura

Junho 2, 2016

«- Ah! O senhor contesta?… Compreendo isso. Traz em si o entusiasmo das Índias, dos templos e das palmeiras, de todo o romantismo de um viagem de dois meses. Sim, eles são encantadores, os trópicos, quando se vêem em caminho de ferro, de automóvel ou de rikscha, e não tive uma impressão diferente quando, pela primeira vez, aqui cheguei há sete anos. Que sonhos eu fiz, então! Queria aprender as línguas e ler os livros sagrados nos textos originais; queria estudar a alma dos indígenas, – sim, é assim que se diz em calão europeu – tornar-me daí a pouco um missionário da humanidade e da civilização. Todos os que chegam, têm o mesmo sonho. Mas nesse cenário asfixiante, lá ao longe, tão longe que escapa à vista dos viajantes, depressa nos faltam as forças, a febre, – toma-se o quinino que se pode, mas apanha-se na mesma – a febre devora o corpo, as pessoas tornam-se indolentes e preguiçosas, transformando-se em verdadeiras hidro-medusas. Um europeu é arrancado ao seu próprio ser, quando, vindo das grandes cidades, chega a uma dessas malditas estâncias perdidas no meio de pântanos; cedo ou tarde, recebe o golpe fatal; uns bebendo, outros tomando ópio, outros pensando apenas em bater e tornando-se uns brutos – de qualquer forma, cada um contrai a sua loucura. Há ainda a nostalgia da Europa, o sonho de voltar de novo, um dia, a uma rua, de se instalar num claro quarto de pedra, entre homens brancos. Durante anos, sonha-se e depois, quando passa o tempo e se arranja uma licença, já não está em condições de empreender a viagem. É sabido que, na Europa, uma pessoa é esquecida e se torna desconhecida, tal como o mexilhão no oceano, um mexilhão que todos podem pisar à vontade.
E assim ficamos e nos depravamos, nestas florestas quentes e húmidas. Maldito seja o dia em que vim para este lugar condenado!…»

Amok – o doido da Malásia, Stefan Zweig (Tradução de Alice Ogando, Ed. Civilização)

2 comentários leave one →
  1. Junho 2, 2016 18:11

    ah! li-o talvez aos 13 anos e recordo bem a impressão que me deixou🙂

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