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O acto de ler reabre feridas

Abril 15, 2016

«ACTO DE LER

O acto de ler reabre feridas. Nos livros
em que isso acontece, com frequência,
poderia ao menos haver um aviso na capa;
assim como se faz com as carteiras de tabaco,
embora se saiba que poucos deixam
de fumar
por isso.

NA MINHA IDADE

Vivo ilegalmente
na minha idade: falhei alguns aniversários.
Caminhei até onde o medo permitiu,
à beira das levadas de rega.

O meu primeiro amor foi um gafanhoto
verde, depois outros bichos pequenos.

Nunca me apaixonei no cinema
como as outras raparigas: apaixonei-me
pelo cinema.

POEMA SEM SAL

Sempre que faço limpezas profundas no armário
da cozinha, estragam-se coisas; de mal arrumados
parti alguns pratos, não faz mal, neles não comerei
mais sopa, só, sem som, sem sal, sem sentido.

EU VIVO AQUI

Não me deixes
na emboscada de uma sombra
não me concedas um amor
duradouro.
Continua a dar-me em cada manhã
a revelação das mãos, os peixes vermelhos
as ribeiras amansadas pelas buganvílias,
os rituais de preguiça
a urze vigilante.

Eu vivo aqui
no desenho mais alto da Ilha
temente dos muitos caminhos
por onde a água pode sumir-se.»

Jogos Radicais, Teresa M. G. Jardim (Ed. Assírio & Alvim, pp. 15-18-22-40)

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