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Sometimes it snows in April

Março 10, 2016

Quando era chavalo e chegávamos a fim de Março, princípio de Abril, era prática comum na escola primária começarmos a preparar o 25 de Abril. Falávamos, escrevíamos e, principalmente, desenhávamos sobre a Revolução dos Cravos. E como eu não era nada cepo nos desenhos a professora pedia-me para mostrar os meus trabalhos pela escola. Para mim era uma vergonha andar a bater de porta em porta e dizer “a minha professora pediu-me para mostrar isto, fui eu que fiz”. E era isto todos os anos, não havia pachorra. Então, esta gente não sabe que o verdadeiro artista precisa do seu recolhimento e detesta exibições públicas, pá! Se quisessem exibir os desenhos bastava pendurá-los na parede, não era preciso ir o seu criador atrás, pá! Sentia-me um pregador da missa do sétimo dia (só me faltava o martelo).

Uns anos mais tarde, mas poucos, ficava fascinado quando via os documentários sobre a Revolução de Abril. Contudo, havia algo que me encanitava. A Primavera Marcelista. Nunca percebia muito bem aquilo e principalmente o nome. Ia perguntando umas coisas aqui e ali e a resposta era sempre algo como: as pessoas ansiavam tanto pela mudança que bastava uma nesga de luz para lhes dar um poucochinho de esperança. Tinham os filhos, maridos, tios, sobrinhos, na guerra colonial. Muitos morriam, outros vinham decepados e a maioria vinha fodida da cabeça. As mães com filhos menores rezavam para que a guerra acabasse quando estes atingissem a maioridade.

A mudança, as pessoas queriam a mudança, ouviam dizer que o salazar ia ser substituído por outro tipo, que algumas coisas iam mudar e, quem sabe, acabar com a guerra.

Mas era precisamente isto que eu, chavalo anos mais tarde, não percebia. Como podiam acreditar num tipo que era do regime até à medula?! Como podiam chamar Primavera se o céu continuava negro e carregado de nuvens, a escuridão mantinha-se, as flores não desabrochavam. Nada ia mudar, só o nome! Claro que eu fazia este tipo de leituras anos depois da revolução. Era como jogar no totobola à segunda-feira.

Muitos anos depois quando via os documentários sobre os campos nazis comecei a lembrar-me da Primavera Marcelista. Os judeus sabiam que iam para a morte, mas bastava uma pequenina mentira para que neles nascesse uma luzinha ao fundo da alma. Ah, afinal era isto a Primavera Marcelista!

Tenho lido por aí muita gente que fala na mudança de estilo com este Marcelo, que é muito diferente do cavaco, que é uma lufada de ar fresco. Eu digo apenas, obrigado História, muito gostas tu de te repetires, como quem diz, se não perceberam à primeira, percebem à segunda. Mas não, esta gente não aprende. Não aprende que depois de um salazar vem sempre um marcelo.

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10 comentários leave one →
  1. Março 10, 2016 18:39

    A liberdade degradou – se de tal forma, que há muito já não “está a passar por aqui”. Passa primeiro por Bruxelas, “mercados” e afins, pelo que chega cá em doses tão pequenas que dela só beneficia a casta afecta à múmia e aparentados. E são tantos… (poucos).
    O beijo e elogio do esquentador ao marcelo é a prova do caminho que teremos de percorrer…

    NB! 🙂 julgo que a minha(cabeça) está +ou-, tendo consciência que se estivesse (-) disso não me apercebia.
    Quer isto dizer o quê? Nada.

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    • Março 10, 2016 22:48

      É evidente o que Bruxelas está a fazer, quer que este governo tome medidas que o BE e o PCP nunca aprovarão e com isso derrubar este governo PS para pôr um psd. Este convite ao junker diz-nos que o marcello vai conspirar para tal.

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  2. Março 10, 2016 20:59

    and i repeat after you:

    ” Eu digo apenas, obrigado História, muito gostas tu de te repetires, como quem diz, se não perceberam à primeira, percebem à segunda. Mas não, esta gente não aprende. Não aprende que depois de um salazar vem sempre um marcelo.”

    não és só bom nos títulos, és mesmo bom nos desenhos 🙂

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    • Março 10, 2016 22:52

      A pintura sempre foi a minha paixão, digamos, secreta. Das artes seria aquela a que mais gostaria de me dedicar se pudesse fazê-lo.
      Ah e és uma exagerada 🙂

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  3. Março 11, 2016 01:23

    Não sou nada, que tenho também a minha paixão: o cinema 🙂

    E as pessoas que conseguiram chegar,’ limpas’, onde quiseram, como as pessoas que lá chegaram por vias sinuosas 🙂

    (isto dava uma conversa/895 posts do caraças, não, Marco?)

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    • Março 11, 2016 15:11

      Dava pano para mangas para os chineses todos 🙂

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  4. Fernando permalink
    Março 11, 2016 06:57

    Clap, clap. 🙂

    Liked by 1 person

  5. Março 11, 2016 19:15

    Ah e se eu sou uma exagerada, estás desde já forçado à redenção, que isto não é só epitetar as pessoas: terás, portanto, que concorrer também à substituição do coisas boas, vulgo, Calder, o tal do gostinho especial, vulgo, The Perfect Martini 🙂

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    • Março 11, 2016 22:36

      Escolher uma imagem para o teu rodapé? Ui, isso é sempre complicado. No meu caso, experimentei vários até conseguir encontrar o meu cabeçalho para este tasco. Mas se me lembrar de algo enviarei.

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  6. Março 11, 2016 22:41

    Do it, if you please 🙂

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