Skip to content

Nano conto de Natal

Dezembro 18, 2015

Como muita gente por esse país fora também ia passar o Natal à aldeia da minha avó. Era uma aldeia que fazia jus à palavra, não tinha luz nem água canalizada. Agora aquilo está tudo descaracterizado, parece um recanto suburbano. Cozinhava-se a lenha num fogão enorme. Era junto à lareira que se punham as pinhas catadas à tarde. Uns minutos ao calor e era ver os pinhões todos a cair. Com um martelinho retirado da arca das ferramentas do meu avô partia-se com cuidado a casca exterior. Foram os melhores pinhões que comi na minha vida.

Ao fundo da rua havia um cruzamento que se chamava Carvalho do Coito. Até isso mudaram, agora tem um nome qualquer, se calhar, algum presidente de junta, sei lá. As palavras quando são muito usadas perdem as arestas, ficam redondas, rebolam naturalmente pela boca fora. Por isso, nunca dei muito significado ao nome do cruzamento, toda a gente o dizia constantemente. Uns anos mais tarde perguntei a razão do nome. Ninguém sabia, tinha-se perdido no tempo. Apenas sabiam que os terrenos ali à volta pertenciam ao vizinho, ao Coito. Era um nome que vinha do pai ou avô do Coito… Parece que o Coito tinha algum peso na aldeia fruto, claro está, dos terrenos herdados. Para além destes terrenos para onde levava o gado, o Coito também tinha uma vacaria. Por isso era também costume ouvir na vizinhança, lá estão as palavras a rebolar, “vou ali buscar leite ao coito”. Também havia um poço no Carvalho do Coito, mas taparam porque era perigoso ter um buraco tão fundo ali no Coito. Modernices.

Por falar em modernices, foram os Natais mais felizes que passei (pudera, era chavalo), não havia televisão (claro, não havia luz…), nem internet, nem aquecedores, tomava-se banho numa pia em água aquecida no fogão a lenha. Era uma aventura para quem vinha da cidade. Era divertido, mas viver ali era outra coisa. Era dureza. De manhã, então, só se estava bem na cozinha junto à lareira. Quando acordava já a minha avó e filhas estavam a assar a carne e a fazer a “roupa velha”. Aquele cheiro da cozinha ficou para sempre bem guardado na gaveta das coisas boas. Agora que penso nisso, vou fechar a gaveta deste conto para o cheiro não se perder. Se calhar volto mais tarde a outra gaveta.

Advertisements
3 comentários leave one →
  1. Dezembro 18, 2015 22:40

    Belo texto.
    “As palavras quando são muito usadas perdem as arestas, ficam redondas, rebolam naturalmente pela boca fora.” (Guardei!)
    Tendo sempre passado o Natal na cidade e sobre os pinhões, deixo um link que mostra como após a ceia a família jogava o jogo:

    Gostar

    • Dezembro 19, 2015 01:37

      Obrigado, Adelino, às vezes lá calha.
      O jogo do rapa joguei na escola com berlindes. No Natal jogava-se ao loto com cascas de amendoins ou avelãs para marcar os números 🙂

      Gostar

Preencha o vazio:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: