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Isso merece um Terras Altas

Novembro 2, 2015

Terras Altas (Dão)

«”Vim para cá seguindo uma mulher, uma deusa, uma santa. Ela havia entrado, um dia, no nosso restaurante, em Belém do Pará. Assim que a vi apaixonei-me perdidamente, era ainda uma menina, de quinze anos. Servia-a à mesa sem que ela me olhasse um mísero instante sequer. Perguntei à senhora que a acompanhava, e que depois soube ser sua tia, de onde eram. Eram de Corumbá, respondeu-me a tia. Logo saíram. Não pude esquecê-la e não me envergonho de confessar que passava as noites a chorar de sofrimento. Emagreci e cheguei a cuspir sangue.”
Alberto levantou o copo como se estivesse a brindar ao facto de ter chegado a cuspir sangue pelo amor. “Eu estava tão ensandecido que abandonei minha mãezinha – que Deus a tenha, junto com meu pai, no céu – e vim para Corumbá atrás da moça.”
A garrafa esvaziara. Pedimos outra ao garçom.
“Quando cheguei aqui procurei-a por toda a parte. Abri esse restaurante, economizei, prosperei, ganhei dinheiro, mas meu coração sangrava como o de um mendigo sem uma sopa fria para tomar. Um dia, um dia inesquecível, ao passar pela porta de uma igreja, vi um casamento. A noiva, toda vestida de branco, com uma grinalda de botões de laranjeira e um longo véu de renda seguro por dois pajens, um menino e uma menina, caminhava como uma princesa pela nave da igreja. Quando vi seu rosto senti algo terrível, como se um raio se tivesse abatido sobre a minha cabeça. A noiva era ela, a mulher dos meus sonhos. Saí da igreja com um cego, um morto desesperado, cambaleando, e assim fui até ao rio e nele atirei-me com a esperança de me afogar ou de ser devorado pelas terríveis piranhas.”
A essa altura de sua narrativa, Alberto fez uma cara tão compungida que parei no meio a primeira garfada do pintado que acabara de ser servido. Seria uma indelicadeza degustar a comida ante tanto sofrimento.
“Mas esta é uma história feliz”, disse Alberto, mudando de semblante. “Não me afoguei, pois nasci à beira do Elvas, onde aprendi a nadar, e as piranhas não quiseram comer a minha carne desventurada.”
Amor, o português sabia, era desvelo, respeito, mas também paciência. O mundo dava voltas. Seis meses depois do casamento, o marido da moça, que estava a pescar no Pantanal, caiu dentro d’água e como não sabia nadar, afogou-se. Alberto esperou um ano antes de começar a lhe fazer a corte.
“Isso merece outro Terras Altas”, eu disse. (pp. 167-168)

A Grande Arte, Rubem Fonseca (Ed. Porto Editora)

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