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Estendidos no meio do trigo

Outubro 20, 2015

Maximilian Pirner, “At the Heights” (1883-84)

«Marthe remava; eu, estendido, apoiava a cabeça nos seus joelhos. Estorvava-a. Bruscamente um  golpe de remo, atingindo-me, vinha recordar-me que aquele passeio não duraria toda a vida.
O amor gosta de partilhar a sua beatitude. Assim, uma amante de natureza fria quanto baste torna-se carinhosa, beija-nos o pescoço, inventa mil e uma provocações, se nos preparamos para escrever uma carta. Eu nunca sentia um desejo tão grande de beijar Marthe como quando um trabalho qualquer a distraía de mim; nunca tinha tanta vontade de lhe mexer o cabelo, de a despentear, como quando ela se penteava. No barco precipitava-me sobre ela, juncando-a de beijos, para que largasse os remos, e o barco ficasse à deriva, prisioneiro das ervas, dos nenúfares brancos e amarelos. Ela via nisso o sinal de uma paixão incapaz de se conter, quando o que sobretudo me incitava era a obsessão de a perturbar, que era tão forte. O receio de sermos vistos ou de que o barco se virasse tornava os nossos jogos mil vezes mais voluptuosos. (…)
Amarrávamos o barco a uma árvore, íamos estender-nos no meio do trigo. O campo, sob a brisa da noite, estremecia. O nosso egoísmo, no seu refúgio, esquecia os prejuízos, sacrificando o trigo ao conforto do nosso amor» (pp. 98-99)

O Diabo no Corpo, Raymond Radiguet (Trad. Maria da Piedade Santos, Ed. Palimpsesto)

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