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Mendel

Outubro 19, 2015

Há livros que são uma homenagem ao mundo dos livros. Se calhar homenagem não é a palavra certa. Por exemplo, estou a pensar nas “Ilusões Perdidas” de Balzac. Este não é apenas uma homenagem. Quem gosta de livros, de ler, da parte técnica da fazedura de um livro, da venda, dos escritores, dos editores, da crítica, das livrarias, das gráficas, da fama e queda dos seus autores, do papel, das tintas, enfim, está lá tudo. Sem ler isto ninguém pode dizer que gosta de livros (fica sempre bem num texto uma boutade destas). Este livro não é uma carta de amor, é um longo e belo romance. Em todos os sentidos.

E depois há o “Mendel dos Livros“. Não é uma carta, é uma canção de amor aos livros. É um 45 rotações, um single que contém toda a história em três minutos e meio. Cinquenta maravilhosas páginas (na edição Assírio & Alvim) que se lêem de uma assentada, como quem ouve uma canção de amor. Desde a paixão, o êxtase, a desilusão, a descida aos infernos e consequente sobrevivência. Jakob Mendel não é um simples alfarrabista, é O livro que contém todos os livros. É um exemplar único e sem reedição. Repare-se:

«Disse rapidamente quais eram os meus desejos: Obras contemporâneas sobre o magnetismo, assim como todos os livros e polémicas posteriores a favor e contra Mesmer; mal terminei a frase, Mendel fechou durante um segundo o olho esquerdo, exactamente como se fosse um atirador prestes a disparar. Mas, verdadeiramente, este gesto de atenção concentrada durou apenas um segundo, depois enumerou rapidamente e de forma fluída, como se estivesse a ler a partir dum catálogo invisível, duas ou três dezenas de livros, cada um deles com os respectivos local e ano de publicação e o preço aproximado. Fiquei perplexo.» (pp. 45-46)

Ou

«À excepção dos livros, este homem estranho não sabia nada do mundo; pois todos os fenómenos da existência começavam a tornar-se realidade para ele só quando estes se tinham vertido em letras, quando se tinham reunido num livro e, por assim dizer, se tinham esterilizado.» (pp. 50-51)

E

«Pois ela, aquela mulher sem estudos ao menos guardara um livro para se recordar melhor dele, mas eu, eu tinha-me esquecido durante anos de Mendel dos livros, precisamente eu que tinha a obrigação de saber que os livros só se criam com o fim de unir as pessoas para além da sua própria existência e, assim, de se defender do inexorável oponente de tudo o que vive: fugacidade e o esquecimento.» (pp. 86-87)

Uma curiosidade, os dois livros que li de Zweig começam com o regresso do narrador a Viena:

«De novo em Viena e de regresso a casa vindo de uma visita à periferia” – Mendel dos Livros

«Quando o afamado romancista R. regressou de manhã cedo novamente a Viena após excursão reparadora às montanhas» – Carta de uma desconhecida

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2 comentários leave one →
  1. Outubro 19, 2015 23:47

    Vou ler! Inspirou-me!

    Liked by 1 person

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