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“Carta de uma desconhecida” (livro)

Setembro 16, 2015

«Quando o afamado romancista R. regressou de manhã cedo novamente a Viena após excursão reparadora às montanhas ao longo de três dias e uma vez na estação de comboios comprou um jornal, mal passou os olhos pela data apercebeu-se, pois lembrou-se, ser hoje o dia do seu aniversário. O quadragésimo primeiro, assim lhe veio logo à ideia; e nem se importou muito nem pouco com tal facto. Rapidamente passou, uma a seguir à outra, as folhas do jornal e ouviu-as quebrando-se; dirigiu-se em carro de aluguer na direcção de sua casa. O criado deu-lhe conta de duas visitas, acontecidas durante a sua ausência, bem como de alguns telefonemas e trouxe-lhe o correio atrasado numa bandeja. Indiferente, passou os olhos pela correspondência, abriu alguns envelopes, cujo remetente despertou o seu interesse; uma carta, de letra estranha, e demasiado longa foi posta de parte. o chá foi entretanto servido, recostou-se comodamente no sofá, folheou o jornal uma vez mais, assim como algumas brochuras; depois acendeu um charuto e agarrou na carta que pusera de lado.
Eram cerca de duas dúzias de paginas escritas à pressa, numa estranha letra de mulher, mais um manuscrito que uma carta. Sem querer, apalpou uma vez mais o sobrescrito não fosse mais alguma coisa escrita ter ficado esquecida lá dentro. Mas o envelope estava vazio e, tal como as próprias folhas, tão pouco apresentava remetente ou assinatura. Estranho, pensou, tomando de novo o escrito em mãos. “Para ti que nunca me conheceste” era o que estava ao alto, como invocação, como epígrafe; pasmado deteve-se: ser-lhe-ia aquilo dirigido, a si? Dirigido a alguém com quem se sonhara? A sua curiosidade ficou subitamente desperta. E começou lendo:

A minha criança morreu ontem – lutei durante três dias e três noites contra a morte, lutei por esta pequena e frágil vida, quarenta horas sentada à beira da sua cama enquanto o seu pobre corpo era sacudido pelas temperaturas elevadas das febres da gripe.»

Carta de uma desconhecida, Stefan Zweig (Trad. Fernando Ribeiro, Ed. A Esfera dos Livros)

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