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“Algumas coisas que a esquerda tem a aprender com a direita”

Setembro 1, 2015

Ao longo dos últimos anos, a direita reconfigurou-se em Portugal. Os partidos são os mesmos, mas num dos casos com uma geração nova: os Passos Coelho (ou os Miguel Relvas) são o símbolo desses promissores políticos que fizerem tirocínio nas juventudes partidárias ou, quando para isso tinham dotes ou amigos, em empresas financeiras ou outras, e que chegaram entretanto ao poder (alguns com insucesso na política, que se pode transformar em sucesso nos negócios). Note o caso do Bruno Maçães, o tuitista frenético do governo: é ignorante? é ideológico? É tudo e nada, por isso é um triunfo acarinhado nos meios do governo porque representa esse quê de inocência e de atrevimento que faz dele uma alma penada das ideias feitas. São as que fazem sucesso.

O que mudou para aqui chegarem merece ser visto.

Mudou a ideologia. Esqueçam a “social-democracia” e a redistribuição, agora é “competitividade” e “empreendedorismo”. Esqueçam Sá Carneiro, que pedia a adesão à Internacional Socialista (e onde ela já vai), agora é o caldo fundidor do Partido Popular Europeu que junta PSD e CDS. Esqueçam tudo o que está para trás, denigram Manuela Ferreira Leite porque ela diz que ainda quer ser social-democrata. No entanto, para os novos líderes da direita falta de ideologia não significa ausência de ideias: pelo contrário, o vazio do pragmatismo é mesmo uma engenharia social, preenchida pela doutrina das chamadas “reformas estruturais”. Na medida em que esta língua de pau se tornou hegemónica na Europa, o caminho estava facilitado: vários governos falam a mesma ideologia e a transumância política entre o centro e a direita é assim facilitada.

Como se chegou a esta mudança ideológica e a esta obediência política, é o que me interessa assinalar aqui.

Para fazer este caminho, os mais preclaros construíram a seu tempo uma rede de aparelhos ideológicos. Foi uma acção deliberada e estratégica e não ocasional. O seu sucesso foi construído meticulosamente. Durou anos e é o seguro de vida destes ideólogos sem ideologia.

Vasos comunicantes de ideias

Na produção de ideias comunicantes, os aparelhos são dois.

O primeiro é o mapa do discurso oficial, reproduzido em conferências e colóquios, revistas e dizeres dos “especialistas” convidados normalmente por televisões: para eles é tudo fácil, vinga a tese da “austeridade inteligente” ou “expansionista”, segundo a qual o ajustamento de uma economia se faz por via da flexibilização do mercado de trabalho, a redução de salários resolve o problema do desemprego, o corte no Estado resolve o problema do défice. São os preclaros anunciadores do tudo fácil. O discurso oficial tem virtudes convidativas, pois apresenta um dicionário simples, as suas palavras são chavões banais que resistem a qualquer prova de factos. A “Europa”, essa massa de ordens e de obediências, é o santo e a senha deste cimento ideológico. A neo-germanofilia é a fábrica dos quadros da direita, seguir o chefe é a sua bússola.

O segundo aparelho é o sistema de reprodução de ideias. É, creio, o mais forte. Se as ideias nem são originais nem são sensatas, são pelo menos banais e criam um senso comum. A galinha do vizinho é maior do que a minha, o remediado queixa-se do rendimento mínimo que o pobre recebe — o CDS fez disso uma indústria eleitoral, no tempo em que ia a eleições. O senso comum ampliou-se entretanto com a mais católica das virtudes, o discurso da culpa e da punição. Bem merecíamos o que nos aconteceu, ainda bem que tiraram uns mesitos de pensão aos nossos avós, ainda bem que o salário dos novos empregos é 580 euros em média, ainda bem que cumprimos o nosso sacrifício, enquanto o pau vai e vem folgam as costas. Pedro Adão e Silva enunciou esplendidamente este discurso ganhador que se tornou a atmosfera que respiramos (Expresso, 29 agosto).

Este discurso tem um aparelho e ele foi preparado meticulosamente. Nos jornais, tem o Sol, mesmo que este tenha minguado para se reduzir a ministro do dinheiro angolano e da sua elite. Mas o centro é o universo do Correio da Manhã, o jornal e o canal cabo, com a estratégia brilhante de banalização do incidente (para o povo), e da Sábado (para os leitores de “classe A e B”, o retrato cor-de-rosa do seu país). Mais recentemente, este aparelho foi reforçado pelo Observador, que constitui estrategicamente um fraldário de repetidores de ideias neoconservadoras, chefiado por um dos seus precursores, José Manuel Fernandes, seguido por um séquito de analistas e jovens prometedores que fazem estágio no texto fácil, ou de graduados como Helena Matos e Rui Ramos. Abdicando orgulhosamente de qualquer pretensão de pluralismo e ciente da dívida ao naipe de empresários cavaquistas que o financia, o Observador é uma trincheira ideológica assanhada.

Nas ideias, funciona a concentração que cria a autoridade. Todos juntos, fazem o coro da banalidade e do senso comum da culpa e do sacrifício.

Redes sociais, empregos e influências

Em contrapartida, estes aparelhos diversificam-se na organização social.

O Compromisso Portugal foi um dos primeiros clubes, mesmo que efémero, que juntou a nata dos jovens empresários, elaborou um discurso liberal, influenciou os partidos de direita e mesmo o PS e preparou o apoio a Cavaco Silva. Depois, foi a vez da Fundação Francisco Manuel dos Santos. O seu Pordata serviu de sua carta de apresentação, marcadamente ideológica (o contador sobre os gastos sociais é um exemplo grotesco) mas útil pela compilação de dados e, portanto, convidativo para franjas amplas da sociedade. A Fundação, com a selecção de conferencistas e gestores, esteve sempre atenta ao que interessa: agrupar os liberais e criar uma carteira de serviços.

Na gestão de expectativas e empregos, a organização de conexões é ainda mais diversificada: desde os empregos de assessores na Presidência da República ou na Santa Casa da Misericórdia, até aos cargos de administradores em empresas públicas ou privadas, a direita baseia-se numa rede entre os negócios e o poder. Como aliás acontece no PS, como demonstrei no estudo detalhado que escrevi com alguns colegas sobre as carreiras de todos os governantes constitucionais portugueses, mas com centros de colocação e cumplicidades específicas. Estas redes de emprego garantem a fabricação da seita e asseguram a inclusão e a mobilidade social dos quadros. Em poucas palavras, criam um campo político. Esse era o objectivo e foi bem conseguido.

Neste mister, destacam-se os escritórios de advogados (vimos recentemente como Marques Mendes e António Vitorino se enfrentavam na privatização da TAP, ambos fazendo parte de escritórios bem ancorados em figuras PS e PSD), mas também algumas lojas maçónicas específicas (a Mozart tornou-se a mais conhecida por episódios recentes das nossas telenovelas políticas e dos serviços secretos) ou outras associações sigilosas, que constituem locais de encontro e de recrutamento.

A vida social e a consagração da elite

Finalmente, na representação social, temos a acção deliberada e temos o movimento gerado pelas formas de poder e de reprodução do poder.

A acção deliberada é a das associações patronais que têm uma função mais política nas negociações de leis e influências do que na formação de empresários ou na configuração de interesses industriais ou financeiros.

A acção em movimento social é no entanto a mais profunda, porque é a que se reproduz por si só. Veja por exemplo como a direita destruiu o movimento estudantil, que era um dos centros da constestação social, pela sua agilidade e pela sua radicalidade. A operação de aniquilação do movimento estudantil foi tão eficaz quanto não planeada por um conspirador: simplesmente, bastou fazer reproduzir a autoridade social, domesticando a universidade, onde os jovens ainda se sentiam jovens e livres. Primeiro, reduziu-se os cursos universitários para 3 anos, diminuindo a sociabilidade continuada pela presença na escola e marcando desde a primeira hora que chegará logo o tempo de pagar a propina do mestrado e de por a gravata para ir procurar emprego. Segundo, degradou-se o ensino público no secundário, promovendo conflitos com os professores, reduzindo o seu espaço, desinteressando-os, atacando a imagem da escola pública e, ao mesmo tempo, multiplicando o financiamento para colégios privados, tidos como os padrões de uma excelência sobrevivente. Terceiro, e mais importante porque mais reticular, promoveu-se a praxe como padrão de comportamento e de reconhecimento social do estudante, sujeito assim à degradação da obediência animal, ao reconhecimento da hierarquia tutelar e omnipotente e à submissão emocional. O sucesso social da praxe é o sinal maior da vitória da direita entre os jovens, a que a esquerda reagiu em pânico, optando envergonhadamente pelo silêncio, incapaz de se opor a esta deriva autoritária e à imagética da animalização do estudante, escolhendo não fazer nada como se se tratasse de uma moda que pudesse ser passageira.

Aprender com a direita antes que seja tarde

Sim, a esquerda tem que aprender com o que a direita vem fazendo com sucesso. Não estranhem os leitores este argumento: a minha opinião, suficientemente notória, é que a esquerda tem objectivos contraditórios com os da direita, que os deve mobilizar para enfrentar o situacionismo e que para tanto requer instrumentos de participação e não de passividade, de criação e não de obediência, de radicalidade e não de conformação. No entanto, deve mesmo aprender com o que a direita faz com sucesso.

Tem que aprender a fazer à sua maneira, mas tem que fazer estrategicamente, com tempo, tempo para colocar peças, montar os seus edifícios, fazer as suas conexões e redes, estruturar ideias fortes e ater-se a elas, ampliando-as. Pouco vale o fogacho comunicativo; não será um sound byte que responderá a uma tensão social. Para tanto, tem que ter instrumentos que respondam aos que fizeram a vitória social da direita: meios de comunicação de ideias, de treino de quadros, de recrutamento de capacidades, de reprodução alargada. Ou seja, precisa de associações transversais, de movimentos sociais com raízes (e o movimento sindical tem perdido campo de legitimação, ao mesmo tempo que o movimento estudantil se desvaneceu), de novas formas de representação e de mobilização dos mais capazes, de think tanks com revistas abertas (creio que um exemplo é a revista Crítica Económica e Social), de colóquios que treinem ideias, de disputas agressivas na internet usando o humor, a crítica e a invenção, de centros de investigação em profundidade e que criem pensamento rigoroso e crítico, ou de iniciativas concretas (alguns livros que aqui referi recentemente serão bons exemplos, outro é “Não Acredite em Tudo o que Pensa”, mas falta muito mais combate de ideias).

Uma boa agenda para a esquerda, se quer ganhar a médio ou longo prazo, é multiplicar todos e cada um desses alicerces. Para tanto, tem que deixar de ser condescendente: está a perder a batalha da criação das ideias e precisa de voltar à luta. Sem isso, a curto prazo pouco fará de jeito. – Francisco Louça no Público

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