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“O pintor debaixo do lava-loiças”

Julho 30, 2015

«Enquanto a água se pode guardar em garrafas, as histórias não podem ser engarrafadas sem que se estraguem rapidamente. Têm de andar ao ar livre como os animais selvagens. Temos de as soltar para que possam correr todas nuas.

(…)

Todos os jardins da nossa infância são o jardim do paraíso. A pele suave desses tempos em que se corria com as pernas arqueadas soltando uma espécie de luz pela respiração. Ríamos a correr para os braços dos adultos numa entrega absoluta. Eles, os adultos, atiravam-nos ao ar e apanhavam-nos com mãos ásperas, e, talvez por isso, quando crescemos nunca mais deixamos de, esporadicamente, sonhar que voamos. E de sonhar com gigantes e anões, pois eram essas as nossas proporções.
Jozef Sors nasceu numa grande casa onde os seus pais trabalhavam. A propriedade pertencia a um coronel do exército chamado Möller. Nas traseiras havia um grande jardim cheio de flores, cercado por um muro alto, todo em pedra.
A mãe de Jozef Sors era engomadeira e o pai era mordomo. Enquanto a mãe era um figura sem protagonismo, baixa e simpática, com maçãs do rosto salientes, o pai era um homem muito especial. Não havia ninguém tão sincero quanto ele. Ignorava por completo qualquer civilidade e dizia exactamente o que sentia e via. Quando o filho nasceu, mal a parteira lhe havia cortado o cordão umbilical, exclamou: parece um rato. A parteira, que se chamava Marija, olhou-o de lado e mandou-o sair, mas o mordomo quis pegar-lhe ao colo. Estava enternecido e chegou mesmo a passar a mão pelos olhos para os limpar. Os seus braços enormes faziam com que o recém-nascido parecesse ainda mais pequeno. Parece mesmo um rato, dizia ele enquanto lhe acariciava a bochecha com o indicador da mão direita. A senhora Sors sorria de cansaço, com as maçãs do rosto maiores do que era habitual. Marija tirou o bebé das mãos do mordomo e pô-lo nos braços da mãe para que ele mamasse. Quando o bebé adormeceu, Marija comentou que era um belo rapaz, forte como a água do mar e saudável como a água da chuva. O olho esquerdo, que parecia uma lua minguante, revelava que iria ser um artista.
— Como os do circo? — perguntou o mordomo.
— Não, como os outros.
A senhora Sors começou a soluçar quando ouviu isto, pois não há nada mais triste do que ser um artista e olhar para o mundo como se o visse pela primeira vez.»

O pintor debaixo do lava-loiças, Afonso Cruz (Ed. Caminho)

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