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Papagaios de papel

Outubro 30, 2014

papagaio de papel

No livro que estou a ler do mestre Cossery, Karim, um revolucionário praticante do humor e do escárnio pelo poder, ganha uns trocos construindo papagaios de papel. Pensa ele que é “maravilhosamente genial ripostar ao progresso nefasto de um mundo alucinado pela mecânica fabricando papagaios, brinquedos magníficos e fúteis.” (p. 22).

Os cínicos (Antístenes de meia-tigela) poderão achar este pensamento demasiado romântico e naïf (estive indeciso se haveria de usar esta palavra quando a nossa Língua nos oferece tantas alternativas. Inocente, pueril, totó (esta é um bocado coiso, eu sei). Mas, às tantas, naïf também sofreu um processo semelhante a fétiche. Sabem a história desta? Eu conto. Parece que há anos, muitos, veio cá um francês qualquer, julgo que andou pelas terras do Norte, e ouviu muitas vezes a palavra feitiço como resposta às situações mais estranhas. Depois o tal francês levou esta palavra para a terra dele. Mas como os gauleses são uns nabos quando falam outras línguas transcreveu-a para fétiche. Ou seja, é assim como o calçado. É feito cá, vai para Itália receber o carimbo de qualidade e volta como calçado italiano. E se é uma marca italiana é porque é boa, né? Eu bem tento convencer-me, Marco, não abras nunca parêntesis, porque te perdes sempre. Adiante)

A escolha de Cossery pela construção de papagaios de papel não será por acaso. Metáforas! Metáforas! diria o carteiro.

Olhando para os dias de hoje, carregados de tecnologia em cada centímetro quadrado, é realmente subversivo incentivar uma criança a brincar com um papagaio de papel. A liberdade de correr não sabendo para onde, caminhar a olhar o céu, sentir o vento. Também construi vários quando era petiz. Lembro-me de um vermelho. Levei-o para a escola. Ia passando vergonhas, porque de início não havia meio de levantar. Será que escolhi bem as canas? Estariam bem secas? Mas veio uma rajada de vento e… olá liberdade, voa, vermelhinho, voa!

Como sou da geração analógica (mas adoro gadgets – esta também é francesa? Não, parece que é inglesa. Marco, fecha o raio do parêntesis rápido antes que te percas!) quando vejo os papás muito orgulhosos com o filho ao lado de tablet na mão dá-me vontade de perguntar “Como é que se chama o filhote? HX573Z?”. Dêem-lhe um papagaio de papel, porra!!

9 comentários leave one →
  1. Júlia permalink
    Outubro 30, 2014 17:08

    🙂 (é bom ler-te)

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    • Outubro 30, 2014 17:17

      Obrigado, Júlia, há livros que nos inspiram.

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  2. Outubro 30, 2014 20:53

    Muito boom. Sobre os papagaios, eu tive um “sol”, que só dias muito ventosos fazia subir.

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    • Outubro 30, 2014 20:57

      “faziam”

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    • Outubro 30, 2014 22:56

      Obrigado, Adelino. Os primeiros que fiz também não correu lá muito bem. Ou se desfaziam no ar ou nem saíam do chão 🙂

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  3. anónimo permalink
    Outubro 31, 2014 11:09

    vim do Brasil com 8 anos (1977), realmente quando vi cá os papagaios, achei-os limitados, no Brasil usa-se a chamada “pipa”, que é um papagaio tipo F16, faz-se o que se quer com aquilo, Usava-se vidro ralado com borracha tirada da árvore, e passava-se nos primeiros metros do fio, depois tentava-se cortar o fio de outra pipa e roubar os outras pipas em pleno voo. Fiquei com o dedo mindinho pendurado, feito burro numa pipa que caiu , peguei pelo fio com vidro e o outro pegou a pipa-))

    realmente ainda bem que nasci no ano certo, vivi uma infãncia normal e posso gozar a tecnologia -))

    não tenho smart phone, nem tablet , nem portátil, tenho PC e telefone para falar e não muito tempo

    e muitos livros de programação,informática,e revistas da especialidade, não é um puto que me vai levar de treta só porque este é o seu tempo-)))

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    • Outubro 31, 2014 15:03

      Essa técnica não conhecia 🙂

      Sobre o último parágrafo, nem mais, a experiência ainda é um posto 🙂

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  4. anónimo permalink
    Outubro 31, 2014 11:16

    este site tem 1200 documentos (códigos e outros) com índice e actualizado, fazem-se coisas boas nesta terra – http://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_main.php?ficha=1&pagina=1&so_miolo=

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