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“A poesia é para comer”

Março 24, 2013

Magnífico texto da Ana Cristina Leonardo:

«Por que é que Platão não gostava de poetas? Eu, pessoalmente, gosto muito de Platão e também gosto de poetas. Um dos poetas de que mais gosto é o Herberto Helder.
Herberto Helder está para a poesia portuguesa como Platão para a filosofia grega. Ou ainda mais. Porque enquanto em Portugal ninguém ousa criticar o poeta, no que toca à filosofia grega a coisa divide-se mundialmente entre Platão e Aristóteles.
Muitos são, de facto, os que elegem o Estagirita. Refiram-se, por exemplo, os biólogos, embora mesmo estes se possam sentir embaraçados com a seguinte afirmação: “As cobras não têm pénis porque não têm pernas; e não têm testículos por serem tão compridas”.
Já no que se refere a Herberto, a veneração pública é unanime, incluindo os que “ao extremo poder dos símbolos” preferem os acontecimentos reais e as “correntes de ar”.
Veja-se o exemplo deste acólito.
“(…) queria falar-te da isabel e de como
choramos juntos, muito maricas, quando
nos correm mal estes amores ou, pior, a
nossa amizade. Esta noite sonhei contigo e
achei graça dizer-te que cheirava mal
na nossa cama. que me incomodou a luz a entrar
pela persiana por fechar. que ouvi com dor o
orgasmo da vizinha de baixo”.
Desconheço em absoluto quem é a amiga de Valter Hugo Mãe citada aí em cima, assim como também desconheço a pobre criança em ruína que verteu este fluido lacrimal
“(…) a minha dor é esta primavera que nasce e me mostra
Que o inverno se instalou definitivamente dentro de mim”
Por muito menos escreveu Almada o “Manifesto Anti-Dantas e Por Extenso”!

Voltando ao Filósofo e o Poeta, do que eu mais gosto na poesia de Herberto é do “êxtase material” que ela celebra e, claro, gosto que ele seja um poeta que gosta de mulheres.
“Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
E seu arbusto de sangue. Com ela
Encantarei a noite.”
Não quero maçar-vos com citações. O caso, porém, é que Herberto explica muito bem Platão. Fá-lo numa parábola que também a mim há muito me obceca.
“Levanto-me então da plateia e, por entre as metralhadoras esculpidas, conto de novo a parábola da agulha, que me obceca. Desentranhei-a de um velho manual.
Trata-de de uma mulher que perdeu uma agulha na cozinha e a procura na varanda da sua casa. Acorre então o jovem que pretende ajudá-la, e pergunta: Que procura? — Uma agulha. Caiu-me na cozinha. Logo o inexperiente jovem se espanta muito e quer saber porque a procura ela na varanda. — Porque na cozinha está escuro — responde a mulher.
A parábola ajudará a desaprender alguma coisa, e depois será possível aprender outra coisa.”
O que esta parábola nos ajuda a aprender é que quando se está às escuras num sítio tem de se ir à procura noutro. Foi o que fez Platão: abandonou a caverna escura em busca de luz e, no fim, construiu um mundo iluminado. Perfeito.
(Sobre mundos perfeitos, ou similares, ninguém viu mais longe do que Albert Camus.
“Paris-Argel. O avião como um dos elementos da negação e da abstracção modernas. Já não há natureza; a garganta profunda, o verdadeiro relevo, a torrente intransponível, tudo desaparece. Resta uma imagem – um plano.
Em suma, o homem passa a ter o olhar de Deus. E apercebe-se então de que Deus tem uma vista abstracta. Não é nada consolador.” )
Os poetas, com a sua poesia, e as pessoas em geral, com o seu riso, observam coisas intransponíveis. É isso que aborrece o filósofo. Que lhe estejam sempre a chamar a atenção para falhas, fracturas, desacertos, desconcertos. No mundo perfeito das esferas platónicas, não há histórias para contar (nem sequer as edificantes) e à arte restar-lhe-á ser redundante e tautológica. Não é, portanto, que ele não goste de poetas. É que eles não fazem sentido.
Claro que Platão desconhecia o provérbio judaico, “O homem pensa, Deus ri”, que, ainda assim, é talvez a melhor coisa que alguma vez foi dita sobre Deus. No que respeita à poesia, volto sempre a isto:
“(…)
Este coração já se não entende com os corações este coração
não reconhece ninguém na turba dos corações
Corações cheios de gritos, de ruídos,
de bandeiras

este coração não é desenvolto com estes corações
este coração esconde-se destes corações
este coração não se compraz com estes corações

Oh cortinas, cortinas e ninguém vê Iniji

Stella, Stella constelada
Já te não levantas para mim, Aurora

Tão pesados
tão pesados
tão taciturnos seus monumentos
tão impérios, tão quadriláteros
tão esmagadores bárbaros, tão vociferantes,
e nós tão nenúfar
tão espiga ao vento
tão longe do cortejo
tão mal na cerimónia
tão pouco da nossa idade e tanto a passear
(…)”

E nada tendo a acrescentar a Michaux, vou contar uma história. Um dia, ia eu a atravessar a planície alentejana e o meu telemóvel tocou. O telemóvel é uma praga que ataca quando menos se espera e que se tivesse sido inventado há mais tempo teria tornado impossíveis muitas das obras-primas da literatura e do cinema (prova que Heidegger tinha razão quando nos alertava para o desencantamento do mundo na era da técnica).
Acho, aliás, difícil fazer um bom poema em que entre a palavra telemóvel e se calhar também é por isso que gosto de Herberto Helder.
Na minha história, que não é um poema, entra um telemóvel. Tocou. Por razões que desconheço, ouvia-se muito mal. No Alentejo, haverá “pássaros azuis” e “barcos bêbedos” mas em certos sítios não há rede. Não sei porquê. Talvez seja dos satélites. Talvez Bukowski até tenha feito um poema sobre isso – satélites. Não sei.
Na minha história, não percebia o que diziam. Sabia que era o meu pai porque o nome dele aparecia identificado. O meu pai nunca me telefona por razões que não vêm ao caso. E de espaço. Vou já terminar.
Chegavam-me sons intermitentes.
Estou? Sou? Tou? Estou? Sou?
Não entendia nada.
Depois escutei a palavra só.
Só?! Só?!
E o meu pai disse de forma clara e distinta: “Só, só como o António Nobre”.
Contado isto, “há-de talvez saber-se um dia que não havia arte, mas tão-só medicina”, embora também pese sobre nós o outro poeta suicida que disse: “A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”.

Agradecimentos: Albert Camus, Almada Negreiros, António Nobre, Arthur Rimbaud, Charles Bukowski, Henri Michaux, Herberto Helder, J. M. G. Le Clézio, Jim Hankinson, Margarete, Maria Lolita Sousa, Natália Correia, Stig Dagerman»

[retirado da revista A Sul de nenhum Norte/ Mal Dita; descarregar aqui]

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5 comentários leave one →
  1. Março 24, 2013 19:37

    Concordo. E tenho saudades dela no blogue. Muitas, várias.
    Obrigada pelo post, MCS.

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    • Março 24, 2013 23:06

      Um texto inspirado e inspirador. O agradecimento vai todo para a Ana Cristina Leonardo.

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  2. Março 26, 2013 00:26

    Levei o texto para o FB. A parábola do Herberto Helder é deliciosa e, sim, inspiradora.

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    • Março 26, 2013 00:28

      Aliás, levei-a para todo o lado. 🙂

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    • Março 26, 2013 00:58

      Como disse alguém “ide e espalhai a palavra do Senh… quer dizer, da Ana Cristina” 🙂

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