«Havia um grande bigodudo, alcunhado Volkswagen por causa de uma perturbante parecença com o carro alemão, e que se passeava com um grande transístor fora das horas de serviço. Gostava de mandar cartas vazias, ou com um pouco de terra, a toda a gente, copiava as moradas dos envelopes apanhados no lixo. Era uma pessoa gentil, um poço simplório, facilmente irritável. Gostava de escrever um dia a Gamal Abder Nasser para lhe propor os seus serviços, ministro ou embaixador ou, na pior das hipóteses, espião. Trazia consigo uma fotografia do Raïs com uma dedicatória que ele mesmo fizera. Dizia que Nasser ia salvar a nação árabe e que era preciso nomeá-lo chefe supremo de todos os árabes. Falava em voz baixa em dialecto egípcio que aprendera à força de ver filmes de Farid El Atrache.» (p. 80)
O Escrivão Público [L’écrivain public], Tahar Ben Jelloun (Tradução de Maria do Rosário Mendes, Ed. Cavalo de Ferro)