«Tive uma paixão pela minha professora de filosofia, uma mulher jovem e notável que não escondia as suas opiniões políticas. Era marxista e reunia em casa dela, à noite, alunos árabes. Havia, entre nós, dois ou três franceses que apoiavam a causa da independência da Argélia. A primeira vez que ouvi falar de Terceiro Mundo foi em casa dela. Lia-nos páginas de um certo Frantz Fannon. Passávamos uns aos outros Os condenados da terra, de que copiávamos capítulos. Foi lançada contra ela uma campanha de calúnias. Os pais dos alunos acusavam-na de subversão e de moralidade duvidosa. A Igreja denunciou-lhe o ateísmo. Aquilo magoou-a muito. Morreu disso. Ficámos órfãos. Eu chorei como uma criança. Ela foi substituída por um antigo professor de latim, escolar e conformista. Sofreu com o nosso luto e a nossa indiferença.» (pp. 49-50)
O Escrivão Público [L’écrivain public], Tahar Ben Jelloun (Tradução de Maria do Rosário Mendes, Ed. Cavalo de Ferro)