Subversão e moralidade duvidosa
«Tive uma paixão pela minha professora de filosofia, uma mulher jovem e notável que não escondia as suas opiniões políticas. Era marxista e reunia em casa dela, à noite, alunos árabes. Havia, entre nós, dois ou três franceses que apoiavam a causa da independência da Argélia. A primeira vez que ouvi falar de Terceiro Mundo foi em casa dela. Lia-nos páginas de um certo Frantz Fannon. Passávamos uns aos outros Os condenados da terra, de que copiávamos capítulos. Foi lançada contra ela uma campanha de calúnias. Os pais dos alunos acusavam-na de subversão e de moralidade duvidosa. A Igreja denunciou-lhe o ateísmo. Aquilo magoou-a muito. Morreu disso. Ficámos órfãos. Eu chorei como uma criança. Ela foi substituída por um antigo professor de latim, escolar e conformista. Sofreu com o nosso luto e a nossa indiferença.» (pp. 49-50)
O Escrivão Público [L’écrivain public], Tahar Ben Jelloun (Tradução de Maria do Rosário Mendes, Ed. Cavalo de Ferro)

Se era marxista, então não poderia ensinar nada mais que prestasse a uma criança. O ateísmo não é o pior de tudo, mas a defesa do aborto. Se é marxista, é abortista e, portanto, imoral!
GostarGostar
Ebrael, até fiquei gago. Nem sei por onde começar. Talvez o mais fácil seja começar pelo início 🙂 Se a ideologia de alguém o impede de ensinar talvez seja melhor substituir os professores por robots ou estátuas com som incorporado.
No meu caso pessoal, os melhores professores que tive eram de esquerda. Se eram marxistas, leninistas, trotskistas ou o raio que os partistas não sei, mas sei que eram os que tinham as mentes mais abertas. Ao contrário da velhada muito catolicazinha que parecia estar a viver na idade das trevas. Pois esta gente não percebia o princípio mais básico de qualquer religião: o respeito pelo próximo. Os fundamentalistas, sejam eles católicos, islâmicos, budistas, protestantes ou mesmo ateus são todos iguais, não os consigo distinguir. E aqui entramos na questão do aborto (que eu não percebi como é que apareceu, afinal, é apenas um excerto de um livro de FICÇÃO). O que é que a ideologia tem que ver com o aborto? Conheço marxistas católicos (sim, existem) a favor e outros contra. Conheço ateus que são a favor e outros contra, e podia continuar com outros “istas” que as convicções de cada um iriam sempre divergir.
E para finalizar: “marxista, logo, abortista (esta palavra faz-me lembrar um adepto de futebol, não sei por quê), logo, imoral”, segue o raciocínio da lógica da batata. E como sabemos, a lógica da batata é tão obtusa que nem merece discussão.
GostarGostar
Nem vou comentar o “viver na idade das trevas” quanto à “velharada católica”. A tal liberdade que todos preconizavam que não tinham no tempo das “trevas” prova-se ineficaz para promover a tal “luz”. Aliás, o próprio conceito de sociedade “iluminista” é uma piada; olhe para a tal sociedade iluminista que aí está, a varrer o catolicismo das “trevas”, em sua ânsia por novidades. Antes (até o século anterior ao marxismo cultural), ao menos, não ouvia-se falar em fábricas usando fetos abortados como material para cosméticos nem em bailes funk com orgias de menores!
Eu acho que você se contradiz, involutariamente, quando fala em respeito pelo próximo como prerrogativa de qualquer religião. Ser ateu, por exemplo, é ser participante de uma visão religiosa que não abarca Deus, diferentemente do ser anti-religioso que abarca Deus como inimigo da sociedade, ou, como praguejava o mentiroso Antonio Gramsci, como “o ópio do povo”. Os ateus, ao menos, defendem o ser humano
Não preciso aceitar a visão religiosa (ou anti-religiosa) do próximo para respeitá-lo como pessoa. Sua abordagem é justamente contrária ao princípio de não fazer acepção de pessoas segundo a religião de cada um. Se eu devo, por dever de consciência humana, respeitar alguém como um ser humano igual, não preciso concordar com tudo o que ele diz.
Sou contra valores destrutivos, e isso nada tem a ver com religião, já que nós, católicos, não somos os únicos a ter certeza da anomalia que é o marxismo, uma ideologia abertamente abortista, que é contra a família como instituição básica (pai, mãe e filhos) sob o pretexto de ser burguesa. Bem, os japoneses tradicionais, chineses e hindus não são burgueses. No entanto, consideram fundamental o tripé homem-mulher-filhos como pilares da continuação SADIA da espécie humana.
E esse negócio de você dizer que não é à favor do aborto, sendo marxista ao mesmo tempo, apenas me diz que você é um marxista dissidente, que não seria aceito socialmente entre os marxistas fundamentalistas. Sim, entre os marxistas, existem também os fundamentalistas. Ser fundamentalista é ser totalmente aquilo que se declara ser. Do contrário, você é apenas mais um dissidente, um membro defeituoso dentro daquele sistema que deve ser encarado como reacionário, o que na religião cristã chamamos de heréticos (do gr. hairetikos= “aqueles que escolhem”…no que querem acreditar ou não).
A incapacidade de a filosofia, sozinha, de incutir valores que mantenham a sociedade em um continuum mostra que a sociedade necessita sim de valores que falem do que o homem ainda não é, mas para os quais precisa caminhar. A ausência de valores morais que unam a mesma sociedade criará uma massa disforme de bestas amorais e antissociais, Isso favorecerá apenas as elites que vocês mesmo dizem combater. fazendo-as ressurgir, triumfantes, como únicas salvadoras de um mundo em crise, favorecendo soluções totalitárias para o Governo Mundial. Mas, pasmem!, não sob o domínio do povo, mas da Elite, essa mesma elite que financiou a Revolução Bolchevique para criar o mito do inimigo do Capitalismo para que os EUA pudessem ter a quem derrubar, uma forma de mascarar seu imperialismo sob uma máscara filantrópica.
A crise do Capitalismo é justamente o que as elites querem para tomar o controle do planeta. O Facebook já detém os dados pessoais (dados, hábitos, mensagens, fotos, localização, histórico educacional, etc.) de mais de um bilhão de pessoas. Os Smartphones permitem que Microsoft e Google monitorem a localização em tempo real, via GPS, de outras tantas centenas de milhões de pessoas. E o número continua aumentando…
Até que os EUA ponham o plano final para controle global: o VeriChip que, longe de se tratar de uma fábula meramente apocalíptica, é a efetivação do controle de massa. É isso o que o marxismo cultural buscou: favorecer o fim da religião cristã. Acabou que os valores morais se enfraqueceram, os apetites humanos se tornaram mais incontroláveis, e toda sorte de desequilíbrios desembocou em um lugar onde mais facilmente poderiam ser amainados temporariamente, de forma viciada: o mundo virtual. Onde está a vida em família? Terá a família algum lugar nesse mundo cada vez mais “único”? Terão nossos filhos capacidade de dizerem não quando a vida virtual e o controle deixarem de ser facultativos??
Para não dizer que tô inventando…
http://pt.wikipedia.org/wiki/VeriChip
GostarGostar
Ebrael, se continuarmos nesta troca de comentários, eu ainda vou acabar numa fogueira, certo? Você interpretou tudo errado (o que não é novidade, tendo em conta a sua visão da realidade). Mas, apesar de tudo, obrigado pelas gargalhadas. A sério. Então esta parte é deliciosa: “E esse negócio de você dizer que não é à favor do aborto, sendo marxista ao mesmo tempo, apenas me diz que você é um marxista dissidente, que não seria aceito socialmente entre os marxistas fundamentalistas.” Magnífico. Errou em tudo, parabéns. E mais: “você é apenas mais um dissidente, um membro defeituoso”. Muito bom, ainda me estou a rir.
Uma pergunta final. Você é pastor da IURD? Olhe, vá pregar para outra freguesia que daqui não leva nada. Ou melhor, não vá pregar para freguesia nenhuma, deixe as pessoas em paz que elas já têm muito com que se preocupar.
PS. Uma correcção histórica (podia fazer outras, mas não tenho tempo): “Antes (até o século anterior ao marxismo cultural), ao menos, não ouvia-se falar em bailes funk com orgias de menores!” Oi?! vá ler umas coisitas sobre o império romano, por exemplo. Quer dizer, é verdade que ainda não havia funk, mas neste caso a banda sonora é secundária.
GostarGostar
MCS, as saudades que me chegaram agora do meu Mattoso botando falas de autonomia no blogue do referendo 🙂
GostarGostar
Alexandra, qual referendo, o do aborto? Timor?
GostarGostar
O do aborto. Timor foi a seguir (acho eu, não interessa, é igual).
GostarGostar
Então vamos arquivar aqui 😉
«Compreende-se que a Igreja Católica condene, em princípio, a IVG. Se há uma certa sacralidade no processo da multiplicação da vida, é preciso respeitá-la. Mas condenar a IVG em qualquer circunstância e seja por que motivo for, corresponde a subordinar o homem ao sábado, e não o sábado ao homem. Os padres e bispos que o fazem correm o risco de se parecer demasiado com aqueles de quem Jesus dizia: «Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os aliviar» (Mt.23.4). Em vez de se obcecarem na condenação seria melhor preocuparem-se com a misericórdia.
A maioria das religiões condena também o aborto, mas admite circunstâncias que o legitimam. Na verdade, a sabedoria tradicional e o bom senso sempre distinguiram entre a norma e a prática. Querer esmiuçar demasiado a norma de forma a poder distinguir quando se justifica ou não a infracção, não resolve coisa alguma. Ninguém pode ser desresponsabilizado. Se procuramos orientações evangélicas para a aplicação da norma, teremos sempre de evitar considerá-la como um absoluto. Temos de aceitar a responsabilidade de decidir em que casos se pode ou deve infringir.
Numa sociedade pluriforme, baseada na convivência de várias religiões, o Estado não se pode constituir como suporte de nenhuma delas nem como guardião dos seus códigos morais. Não pode resolver pela força o que a Igreja não consegue pela persuasão e muito menos perseguir as vítimas de uma sociedade permissiva em matéria sexual e que tanto legaliza a coabitação instável como a família estável. O que é preciso é que Igreja e Estado colaborem, cada qual à sua maneira, na reparação dos inevitáveis estragos causados pela evolução dos costumes. A criminalização por via civil não resolve coisa alguma.
A hierarquia católica, depois de ter parecido querer evitar uma posição agressiva, tem dirigido a campanha como se de uma cruzada se tratasse. Concentrou a sua estratégia na obtenção do «não»; pouco ou nada faz para resolver os problemas que conduzem à multiplicação da IVG. Se conseguir o triunfo do «não», ficará, decerto, de consciência tranquila. Triunfará o «princípio». As mulheres continuarão a abortar, mas a Igreja já não tem se de preocupar com isso. A responsabilidade é delas. A isto chama-se hipocrisia.» José Mattoso
GostarGostar
A Igreja não pode realmente retirar de quem quer que seja a liberdade de fazer o que quiser com seu corpo, mas jamais poderão tirar do povo católico (realmente católico, não os “hipócritas”) a liberdade de pregar abertamente contra o aborto ou contra qualquer linha de raciocínio que lhes seja contrário. Lembrem-se: querem liberdade de expressão e consciência, terão que fazer o mesmo para conosco, respeitar nossa liberdade de pregar contra.
A sociedade em si é pluriforme, mas não pode-se forçar a ser pluriforme o modo como uma doutrina estabelecida é interpretada. Ou seja: a forma pétrea como uma doutrina pretende se manter uniforme, evitando assim a dissolução, não pode simplesmente ser taxada de fundamentalista. Se o mundo resolve relativizar tudo a uma visão pessoal, acaba prevalecendo a visão do mais forte, e daquele que diz: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”!
GostarGostar
Isso, MCS, isso, o meu Mattoso, de facto muito antes de qualquer referendo, naquela humildade genial tão dele 🙂
Let’s arqui’vate 🙂
GostarGostar
😉
GostarGostar