No Vazio da Onda

V

Ontem estive ouvir a entrevista ao tipo que dizem ser o primeiro-ministro. Ao longo de toda a entrevista uma palavra esteve sempre presente. Nunca foi dita, nem uma única vez. Nunca sequer ficou subentendida no seu discurso, mas estava lá. Estava nos olhos dele. Lia-se na expressão facial, no sorriso amarelo, nas pausas que antecediam as respostas. Nos momentos em que se irritava cheguei a pensar que ele a fosse gritar, tal como o fazem os arguidos após um longo interrogatório. Mas não, manteve o sangue-frio até ao fim. Aquela frieza de quem sabe estar a executar um plano rigorosamente planeado ao longo de anos. O que o conteve foi pensar nos momentos, em anos anteriores, em que se encontrava sozinho e delineava minuciosamente no seu plano o que poderia correr mal, o que o poderia impedir de ser executado. Por fim, convenceu-se: “Independentemente de quem fique pelo caminho, o meu plano tem de ser executado até ao fim. Só aí me sentirei vingado.”

A política também se rege por sentimentos. Às vezes, só mesmo pelos sentimentos. Não é pouco comum ouvirmos os analistas dizerem que tal pessoa tem faro político, tem feeling, tem a capacidade de prever as situações mais difíceis, tem uma visão para o país. Ora, o que é isto senão uma questão de sentimentos.

O actual PM foi colocado neste posto pelos sentimentos dos eleitores. Ganhou as eleições potenciando os sentimentos mais mesquinhos da espécie humana. Canalizou os sentimentos que os eleitores tinham sobre o anterior primeiro-ministro para chegar à vitória. A tão ansiada vitória. Finalmente o seu plano ia entrar em acção.

Chegou pelo ódio para executar a vingança.

Pergunta do jornalista: Mas sr. PM, são os próprios ex-dirigentes do seu partido que dizem: no fim deste orçamento estamos todos mortos.
Resposta do tipo: Eu nunca disse que o caminho ia ser fácil.

Não negou que iria provocar a morte de muitos inocentes. No seu íntimo terá pensado: “eu quero lá saber que vocês morram todos, isso são danos colaterais, o que importa é seguir o meu plano de vingança à risca e em riste”.

Este é o típico discurso de um homicida obcecado. Seguir o plano, sempre o plano. Veja-se como ele se irritava sempre que alguma pergunta colocava em causa o plano. Levantava a voz, quase em histeria, exasperado, “não, não, não me vou desviar do meu plano.” Uma única vez foi obrigado a recuar no seu plano. Após a manifestação de 15 de Setembro, recuou na TSU. Resultado: aumentou os cortes e a carga fiscal. A vingança serve-se fria. Terá pensado o criminoso: “Por cada passo atrás no meu plano, irá custar-vos o dobro.”

Parece o argumento de um filme de série Z. Vemos um miúdo de joelhos ao lado da cama de um moribundo, a chorar, lavado em lágrimas e, olhando para cima, diz: “vou vingar-me por tudo o que nos fizeram, por tudo. Eles vão pagar caro, muito caro. Não te preocupes, eu vou vingar-me.”

Já hoje, quando passava por uma praça de táxis ouvi algo que me chamou a atenção. “Vivemos um comunismo de direita”, terá alguém dito. Abrandei o passo e levantei as orelhas. Saquei do telemóvel e simulei que estava a ler uma mensagem e ele lá continuou: “Andam a roubar aos pobres para dar aos ricos, para dar aos bancos, aos grandes grupos económicos, à máfia financeira…” Estive para interrompê-lo e lhe dizer: “Isso que acabou de dizer chama-se capitalismo. Bem-vindo a este admirável mundo novo”. Quem diria que iria ouvir para contar que até os taxistas mudaram o seu discurso. Mas aqui eu estou para contá-lo.