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Gore

Novembro 27, 2012

«Um dia entrou na capela, como se fosse movido por uma força exterior, e ficou a olhar para o coração de Fanny, massa rosada dentro do frasco em cima do altar. Não rezava, nem sequer estava comovido. Aparentava só aquele obscuro sentido que o advertia de um perigo. Ouviu ruído e sobressaltou-se. Era Franzina que vinha varrer a capela; trazia um balde e uma vassoura na mão. Ela parou, não sabia se devia sair ou continuar o trabalho. Aquele homem de preto, e sobre o qual caíam acusações descabeladas, causava-lhe insuportável mau-estar.
– Faço-te medo, rapariga? – disse José Augusto.
– Não, senhor. Só me impressiona entrar aqui.
– É um coração, um músculo parado, como um relógio parado. Não te impressionavas quando o podias sentir bater no peito dela, no pulso. E então, sim, é que era assustador. Saíam dele coisas espantosas: o destino dum homem, e de mais até. A verdade absoluta e vingativa também lá se fabricava. Até Deus no seu trono se construía lá dentro, como uma obra de engenharia, uma ponte ou uma calçada. Agora vê: está limpo, inofensivo e sem cheiro e sem fogo, sem nada que cause desordem no mundo…
– Deixe-me ir, senhor José Augusto…
– Gostavas da tua ama?
– Era uma boa senhora.
– Mas não a amavas. Era um anjo, mas não a amavas.» (pp. 210-211)

Fanny OwenAgustina Bessa-Luís (Ed. Guimarães)

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