O primeiro filme soviético de ficção científica
«Toca o telefone. O editor da redacção russa da rádio “Multikulti” diz-me que hoje à noite o cinema Arsenal vai mostrar o primeiro filme soviético de ficção científica, o Aelita, de 1924. Eu devia fazer uma reportagem sobre isso e ir lá colher os sons do filme original. O gravador e o microfone estão na rádio à minha espera, eu só tenho que passar por lá a buscá-los.
Durante os 45 minutos da viagem de metro, fui dedicando alguns pensamentos ao tema da cultura juvenil. Resultado: zero. É irritante, não tenho absolutamente nada a dizer sobre este tema. O rapaz no banco em frente ao meu está a folhear uma revista qualquer com um meio sorriso. Aí está! A cultura juvenil! Sento-me ao pé dele e pergunto-lhe que coisa é essa tão gira que ele está a ler. Um catálogo do Ikea.
Tudo em ordem, o gravador já está nas minhas mãos e está tudo a postos. O filme começa às 19.00. Às sete menos dez já eu estou na sala de cinema. Sento-me na terceira fila, mesmo à frente da grande coluna de som, e preparo tudo para a gravação. Às sete começa o filme. Trata de uma revolução em Marte. O Rei de Marte, armado com uma faca de vidro, persegue uma jovem mulher que foge com o rabo a dar a dar. A mulher abre a boca. Agora devia sair dali um grito aterrorizado, mas é em vão que empunho o microfone. O filme é mudo. Tão completamente mudo, como só os filmes russos mudos do ano de 1924 podem ser.» (pp. 57-58)
Russendisko – discoteca russa, Wladimir Kaminer (Tradução de Nuno Batalha, Ed. Cavalo de Ferro)

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