«Toca o telefone. Um certo senhor Kravchuck, repórter do Spiegel spezial, apresenta-se e resmunga que tem um artigo para escrever sobre os intelectuais da Europa de Leste residentes em Berlim mas que praticamente não encontrou candidatos adequados. Russos, só tinha conseguido arranjar dois tipos velhos e frustrados, e búlgaros nem um para amostra. Irrito-me, Perdão? Não encontrou búlgaros? Mas eles estão em toda a parte, só não conseguimos é reconhecê-los porque imitam os alemães na perfeição. Todas as orquestras na Alemanha têm um maestro búlgaro, e para além disso ainda há os músicos vencedores do prémio Stockhausen, e por último, o instituto de cultura búlgara. E se se trata de intelectuais de Leste, ainda existo eu, raios partam! O homem do Spiegel anota tudo isto e opina que eu deveria sem dúvida entrar na edição especial.
– Daqui a vinte minutos vai aí o fotógrafo para fazer uma fotos suas.
Visto as calças à pressa e procuro uma camisa lavada. Ao mesmo tempo vou vendo a MTV, pesquisando o tema da cultura juvenil. Os negros gordos continuam infatigáveis a circunscrever a árvore. O fotógrafo chama-se Karsten e quer fotografar-me no meio da pessoas, o lugar-comum preferido para o retrato do intelectual de Leste europeu: um estrangeiro, mas ainda assim, uma pessoa como eu e tu.» (pp. 56-57)
Russendisko – discoteca russa, Wladimir Kaminer (Tradução de Nuno Batalha, Ed. Cavalo de Ferro)