Protesto
«Sou um dos libertos de San Miguel de los Reys, sinistro presídio onde a monarquia enterrava vivos os homens que, por não serem cobardes, nunca se submeteram às leis infames que os poderosos impuseram aos oprimidos. Para lá me levaram, como a tantos outros, por ter lavado uma ofensa, por me ter rebelado contra as humilhações de que era vítima uma aldeia inteira, enfim, por ter morto um cacique.
Jovem era e jovem sou, pois ingressei no presídio aos vinte e três anos e dele saí, porque os meus companheiros anarquistas nos abriram as portas, quando tinha trinta e quatro. Onze anos sujeito ao tormento de não ser homem, de ser uma coisa, um número!
Comigo saíram muitos homens, igualmente amargurados, igualmente doridos pelos maus tratos recebidos desde o dia do nascimento. Uns, ao porem o pé na rua, foram correr mundo; eu e os restantes reunimo-nos aos nossos libertadores que nos trataram como amigos e nos amaram como irmãos. Com eles, pouco a pouco, formámos “a Coluna de Ferro”; com eles a passo acelerado, assaltámos quartéis e desarmámos os terríveis guardas civis; com eles, ao empurrão, rechaçámos os fascistas para os picos da serra, onde ainda agora estão. Acostumados a agarrar o que nos fazia falta e a acossar o fascista, apresávamos-lhe os víveres e as espingardas. E alimentámo-nos durante certo tempo do que os camponeses nos ofereciam e armámo-nos, sem que ninguém nos fizesse a dádiva de uma arma, com o que, à força de músculo, tirámos aos militares amotinados. A espingarda que acaricio, e que me acompanha desde que abandonei o fatídico presídio, é minha, bem minha; arranquei-a, como um homem, ao que a tinha nas mãos, tal como fizeram quase todos os companheiros com as suas.»
Protesto ante os libertários do presente e do futuro acerca das capitulações de 1937 – por um “incontrolado” da coluna de ferro [o original espanhol não é titulado] (Tradução de Buíça, Ed. Antígona)
