«Tenho uma brochura maravilhosa, tradução do francês, em que se conta como em Genebra, Richard, um rapaz de vinte e três anos que, segundo parece, se converteu ao cristianismo mesmo antes de subir ao cadafalso. Esse Richard era filho ilegítimo de alguém a quem os pais, aos seis anos, deram a uns pastores montanheses suíços que o prepararam para o trabalho. Crescia no meios deles como um animalzinho selvagem, os pastores não lhe ensinavam absolutamente nada, pelo contrário, aos sete anos já o mandavam apascentar o gado, à chuva e ao frio, quase nu, quase sem alimento. E quando o tratavam assim não tinham dúvidas nem arrependimento, antes consideravam que tinham todo o direito para tal, porque Richard lhes fora oferecido como um objecto, e nem sequer achavam necessário dar-lhe de comer. O próprio Richard testemunharia mais tarde que naqueles anos, tal como o filho pródigo do Evangelho, ele ansiava por comer ao menos a lavadura que se dava aos porcos cevados antes de serem vendidos, mas nem sequer isso lhe era autorizado e batiam-lhe quando roubava o comer aos porcos. Assim passou toda a infância e juventude até que deitou corpo, ficou forte e foi roubar. O selvagem começou a ganhar dinheiro trabalhando à jorna em Genebra, mas gastava tuudo nas tabernas, vivia como um monstro e acabou por roubar e matar um velho. Apanharam-no, julgaram-no e condenaram-no à morte. É que lá não há sentimentalismo. Então, é rodeado imediatamente, na cadeia, pelos padres e membros de várias confrarias de Cristo, por senhoras de caridade, etc. Na prisão ensinaram-no a ler e a escrever, explicaram-lhe os Evangelhos, chamaram-no à razão, persuadiram-no, pressionaram-no, serrazinaram-no e, por fim, ele próprio confessou solenemente o seu crime. Converteu-se, escreveu pelo próprio punho ao tribunal reconhecendo que era um facínora e que tinha, por fim, sido digno da iluminação de Deus, que lhe enviara a bem-aventurança. Tudo se emocionou em Genebra, toda a Genebra benemerente e beata. Tudo o que era sublime e polido se precipitou para a sua prisão, toda a gente abraçou e beijou Richard: “És o nosso irmão, desceu sobre ti a bem-aventurança!” Quanto ao próprio Richard, só chora, enternecido: “Sim, desceu sobre mim a bem-aventurança! Dantes, durante toda a infância e juventude, contentava-me com a lavadura dos porcos, mas agora desceu sobre mim a bem-aventurança e morro em Deus!” “Sim, sim, Richard, morres em Deus, derramaste sangue e tens de morrer em Deus. Embora não sejas culpado de não teres conhecido Deus quando cobiçavas a lavadura dos porcos e quando te batiam por roubares o alimento dos porcos (muito feio da tua parte, aliás, porque não se deve roubar), derramaste sangue e tens de morrer.” Chega, então, o derradeiro dia. Richard, debilitado, chora e só repete a cada instante: “É o melhor dos meus dias, vou ter com Deus!” “Sim”, gritaram os padres, os juízes e as senhoras de caridade, ” é o teu dia mais feliz porque vais ter com Deus!” Todo o cortejo, atrás do carro da vergonha em que levaram Richard, avança em carruagens e a pé. Chegam ao cadafalso: “Morre, irmão”, gritaram a Richard, “morre em Deus, porque desceu sobre ti a bem-aventurança!” E arrastaram o irmão Richard, coberto de beijos dos outros irmão, para o cadafalso, deitaram-no na guilhotina e cortaram-lhe fraternalmente a cabeça, porque sobre ele descera a bem-aventurança.» (pp. 293-294)
Os Irmãos Karamázov [Brátia Karamázovi], Fiódor Dostoiévski (Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Ed. Presença)