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“Os homens esquecidos de Deus”

Julho 31, 2012

«Fazia um calor terrível.
Na rua da Mulher Grávida, o carteiro, como costumava fazer todas as manhãs, parou diante da loja do engomador Hanafi.
– Deus te salve -, disse ele.
O engomador, que dormitava como sempre, sofria na alma com aquela intrusão quotidiana e inevitável. Lentamente, abriu os olhos e contemplou o carteiro com o ar de idiota que o perseguia desde que nascera. Bem gostaria de esfregar os olhos, mas não chegou a esboçar esse gesto: sentia-se sempre paralisado por escrúpulos estranhos e sem nome. Tirando esta inércia contagiosa, era o homem mais vulgar do bairro.
Respondeu à salvação do carteiro, depois voltou a cair no seu sono primitivo, essencialmente vão, sem choque, sem esforço, pesado como uma pedra a cair na água. O sono era o seu elemento natura. Mas o carteiro não estava pelos ajustes. Naquela manhã, precisava de falar a Hanafi de um assunto excepcional e que o preocupava muito. É certo que a sua cara traía alguma apreensão, mas de natureza puramente medíocre e por isso mesmo mais impressionante. Como em seguida se verá, havia algum motivo de apreensão. As relações entre ele e os habitantes da rua da Mulher Grávida estavam muito tensas. Contudo, afoitou-se ao ponto de dizer:
– Acorda, Hanafi!»

Os homens esquecidos de Deus [Les Hommes Oubliés de Dieu], Albert Cossery (Tradução de Ernesto Sampaio, Ed. Antígona)

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