«- Sim, naquele dia tive medo. O meu navio ficou seis horas com aquele rochedo encostado ao casco, batido pelo mar. Felizmente fomos recolhidos, para a tarde, por um navio de transporte de carvão que nos viu.
Então um homenzarrão de rosto tisnado, com um aspecto grave, um daqueles homens que sentimos que atravessaram longínquos países desconhecidos por entre perigos incessantes, e cujo olhar tranquilo parece conservar no fundo de si algo das paisagens estranhas que viu – um desses homens temperados pela coragem, falou pela primeira vez:
– Diz o senhor, comandante, que teve medo; não acredito. Está enganado na palavra e na sensação que experimentou. Um homem enérgico nunca tem medo diante do perigo iminente. Fica emocionado, agitado, ansioso; mas o medo é outra coisa.
O comandante replicou, rindo:
– Caramba! Pode estar certo de que eu cá tive medo!
Então o homem de tez bronzeada disse numa voz lenta:
– Permita-me que me explique! O medo (e os homens mais destemidos podem ter medo) é algo de assustador, uma sensação atroz, como que uma decomposição da alma, um espasmo horroroso do pensamento e do coração, e basta a sua lembrança para provocar calafrios de angústia. Mas a quem é corajoso tal não acontece perante um ataque, nem perante a morte inevitável, nem perante todas as formas conhecidas do perigo: acontece em certas circunstâncias anormais, sob certas influências misteriosas, diante de riscos vagos. O verdadeiro medo é algo como uma reminiscência dos terrores fantásticos de outrora. Um homem que acredita em fantasmas e que imagina lobrigar um espectro no meio da noite há-de sentir o medo em todo o seu pavoroso horror.
Eu cá adivinhei o medo em pleno dia, há cerca de dez anos atrás. E tornei a senti-lo no Inverno passado, numa noite de Dezembro.
E olhem que passei por muitos imprevistos, por muitas aventuras que pareciam mortais. Bati-me várias vezes. Fui abandonado como morto pelos ladrões. Na América fui condenado, como insurrecto, a ser enforcado, e atirado ao mar da ponte de um navio nas costas da China. Sempre que me julguei perdido resignei-me, sem me enternecer e até sem nostalgia.
Mas o medo não é isso.» (pp. 229-230)
Contos escolhidos, Guy de Maupassant (Tradução de Pedro Tamen, Ed. D. Quixote)