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“A Casa da Morte Certa”

Junho 18, 2012

«Era Inverno, o terrível Inverno do Egipto miserável. O dia começara no horror de um frio glacial. De início, o vento importunara a cidade moderna e as suas construções em betão armado, semelhantes a fortalezas invencíveis. Depois, irrompeu como um selvagem nos bairros populares. Aí, nenhum obstáculo sério se opunha à grandeza do seu ímpeto. Fizera as suas investidas no infinito dos casebres e inundara as vielas com o seu fôlego devastador. Um vento glacial, carregado de uma humidade nociva, passava através das paredes vacilantes dos tugúrios, modelava ruínas, enrolava-se em torno de escombros infames, suscitando,por toda a parte, o odor pestilento da miséria.
Escondida no topo da viela das Sete Meninas, a casa de Khalil – o repugnante proprietário – fendia com as rajadas de vento e acabava de se converter em ruínas. É preciso dizer a atroz verdade. Esta casa mantinha-se de pé apenas por milagre. Sozinhos, uns filhos da puta, ofuscados por uma miséria abjecta, abrigavam a sua mesquinha existência entre estas paredes destruídas. Qualquer vulgar carro ambulante de um vendedor de alfaces, passando na viela, fazia-a vacilar pela base. Assim, para prevenir qualquer perigo, fora proibido o acesso à viela a todos os tipos de veículo e até mesmo a alguns vendedores ambulantes, cuja voz demasiado potente – com nefastas deslocações de ar – arriscava precipitar a catástrofe. Mas enfim, todas as precauções não impediam a trágica ameaça de crescer e de se desenvolver. A casa estava tão desamparada nos seus mais pequenos recantos que, para além dos elementos exteriores que fomentavam a sua ruína, encerrava em si mesma o gérmen do seu desabamento. Nada o podia deter na sua metódica e vertiginosa destruição. Quanto aos seus inquilinos, eram pessoas resistentes a tudo, desde há muitas habituadas a todos os horrores alucinantes da vida dos pobres. A sua estranha miséria não lhes dava tempo de compreender e de gritar. Para além disso, para quê gritar? Onde se encontravam, ninguém os podia ouvir. Então, diziam, com sabedoria, que uma infelicidade que conhecemos vale sem dúvida mais do que uma infelicidade dissimulada e que se esconde.»

A Casa da Morte Certa [La maison de la mort certaine], Albert Cossery (Tradução de Ana Margarida Paixão, Ed. Antígona)

7 comentários leave one →
  1. Joe permalink
    Junho 18, 2012 20:16

    permita-me a ousadia de deixar uma banda sonora para lugares inóspitos 🙂
    (do meu passado mais pesado)

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  2. fallorca permalink
    Junho 19, 2012 09:26

    Há casas assim 🙂

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    • Junho 19, 2012 17:38

      Vamos lá ver se vou conseguir cumprir a minha promessa: um por ano. Ou então faço como os políticos: prometo que faltarei à palavra 😉

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Trackbacks

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