Um gato dado a estupefacientes
«Ieguene mexeu-se, como quem espanta o frio. Deu pela sensação de um roçar contra as pernas, ouviu um ronrom, era o gato. Onde estaria ele escondido? Baixou-se, para o apanhar, sentou-o nos joelhos e pôs-se a afagar-lhe o pêlo. O animalzito ronronava, de olhos fixos nele, à espera que lhe desse qualquer coisa. Ieguene divertira-se um dia dando-lhe uma minúscula bolinha de haxixe, e desde então, sempre que surgira a ocasião, recomeçara a brincadeira. Era seguramente o único gato do mundo dado a estupefacientes. Parecia ter tomado gosto por esta espécie de gulodice; começava a enervar-se e a querer arranhar. Ieguene via-se em delicada situação; só tinha um bocadito de droga, coisa pouca, e não ia agora partilhá-lo com o gato. As fantasias, que diabo, têm os seus limites. Mas como explicar tal coisa ao gato?» (pp. 52-53)
Mendigos e altivos [Mendiants et Orgueilleux], Albert Cossery (Tradução de Júlio Henriques, Ed. Antígona)

que diabo… boa dica, obrigado.
GostarGostar
Espero que a boa dica seja literária e não felina 😉
GostarGostar
ehehheh literária sim… quando voltar à pátria vou procurar 🙂
GostarGostar
Julgo que não terá dificuldades em encontrar.
GostarGostar