«Não creio que a Batalha do Marne, por exemplo, se tenha revestido, para o público em geral, da natureza melodramática que mais tarde lhe foi conferida. Nem sequer me recordo de ouvir a expressão “Batalha do Marne” até se terem passado vários anos. Os alemães encontravam-se a trinta e cinco quilómetros de Paris – e isto era bastante assustador, é certo, após os relatos das atrocidades cometidas na Bélgica – e depois, por qualquer motivo, deram meia-volta e bateram em retirada, nada mais. Eu tinha onze anos quando a guerra começou. Se passar em revista as minhas memórias de forma honesta e puser de parte o que descobri desde então, tenho de reconhecer que não houve nada no decurso da guerra que me tenha emocionado tanto como a perda do Titanic, escassos anos antes. Este desastre comparativamente menor chocou o mundo inteiro, e, mesmo nos dias de hoje, a comoção ainda não esmoreceu por completo.» (pp. 70)
Livros & Cigarros, George Orwell (Tradução de Paulo Faria, Ed. Antígona)