No Vazio da Onda

“O meu primeiro honorário”

«Viver em Tiflis, na Primavera, ter vinte anos e não ser amado é uma desgraça. Desgraça que me tocou. Trabalhava então como redactor na tipografia da Região Militar do Cáucaso. O Kura passava a correr, fervilhando, por baixo das minhas águas-furtadas. De manhã, o sol, que nascia por detrás da serra, acendia o seu espelho turvo. Alugara aquelas águas-furtadas a um casal de georgianos recém-casados. O meu senhorio vendia carne no mercado oriental. Entontecidos de amor, o açougueiro e a mulher mexiam-se atrás da parede como peixes enormes fechados num frasco. As caudas desses peixes enlouquecidos batiam no tabique. O sotão escuro, queimado pelos raios de sol verticais, estremecia, desengonçava-se, levitava no infinito. Não conseguiam despregar os dentes, contraídos pela vil persistência da paixão. Pela manhã, a recém-casada Miliet descia à procura de lavach, o pão. Sentia-se tão fraquinha que tinha de se amparar ao corrimão para não cair. Tacteando o degrau com o seu pezinho, Miliet sorria vaga e cegamente, como se estivesse de convalescença. Levava as palmas das mãos aos seus seios pequenos e saudava com uma vénia toda a gente que encontrava pelo caminho: um assírio, com a patine verde dos anos; um vendedor de querosene e megeras, rosto marcado por rugas escaldantes, que vendia novelos de lã de carneiro. À noite, no quarto vizinho, os empurrões e o balbuciar cediam lugar a um silêncio tão profundo que parecia assobiar como uma bala de canhão.»

Isaac Babel in “10 Jóias do Conto Russo” (Tradução do russo por Aleksandre Bazine, Ed. Campo das Letras)