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P(r)ós modernos

Fevereiro 11, 2012

Sempre que ouço ou leio os argumentos dos defensores do Novo Acordo Ortográfico não sei por quê, lembro-me desta música. Eles utilizam cada argumento mais bacoco que não lembraria ao Flaubert. Por falar nisso, a melhor comparação foi feita pela Ana Cristina Leonardo: são uns autênticos Bouvard e Pécuchet. Por todos os santinhos, leiam este livro.

Estava previsto que este post ficasse por aqui, mas resolvi continuar. Há dias foi noticiado que o Spielberg vai filmar Moisés em versão “Braveheart”. Ou seja, já se prevê que seja uma valente cagada. Assim, para não o deixar sozinho também me vou armar em Moisés, vou fazer uma separação das águas. Já cá faltava mais um pregador…

Antes de mais nada um preâmbulo para excluir destas águas aqueles que apesar de terem adoptado o NAO, não são propriamente defensores do acordo. Adoptaram, porque, por questões profissionais ou outras, tornou-se mais cómodo não perder tempo com conversões à nova ortografia. No fundo, estão-se mais ou menos borrifando para esta polémica. São uma espécie de deixa andar, tenho mais em que pensar. Sendo assim, também não me vou preocupar com eles. Cá para mim são os mesmos que passam o ano a repetir “os políticos são todos iguais”, mas quando chega o momento de votar, escolhem sempre os mesmos. Não ligam patavina à política, mas nunca falham uma votação, estão em todas. E como já estou a perder demasiado tempo com estes híbridos, continua para bingo.

Como eu ia dizendo, quer dizer, ainda não disse, mas faz de conta que sim, os argumentos dos defensores do NAO são do mais bacoco que já ouvi/li. São tão bacocos que de momento nem me lembro quais são. Na verdade, julgo que nem os têm, limitam-se a atacar os que são contra, reagem à reacção. Eu não disse que eram bacocos? Pronto, pronto, eu lembro-me de um: dizem que os portugueses, com mais ou menos barulho, habituam-se e passados uns meses já nem se lembram de como escreviam antes do acordo. Sempre que ouço este “argumento”, zás, flashback, vêm-me à memória uns bácoros (schweine na língua deles) que diziam o mesmo: “Têm frio? Têm fome? Não se preocupem que vocês habituam-se. E se reclamarem muito, temos ali uns espaços bem quentinhos que vos liberta logo da tosse.” Outro tipo de bacoquice é dizer com suposta ironia (sabem lá o que isso é, cambada de tones): “Porque não, já agora,voltar a escrever com ph ou voltar ao tempo de Dom Dinis?” E porque não, respondo eu. Esteticamente é muito mais interessante. Os ingleses escrevem com ph e efe ao mesmo tempo e nem por isso deixa de ser a língua mais falada do mundo. Mas responder desta forma é descer ao nível dos bacocos e, uma vez cá em baixo, eles dominam. Por isso, adiante.

Os dados estatísticos dizem-nos que, em 1970, havia em Portugal uma taxa de analfabetismo à volta dos 30%. Ora, estes são os dados oficiais, logo, seria um pouquinho mais, não? Se juntarmos a estes 30% aqueles que pouco mais sabiam do que escrever o próprio nome e ler as placas das ruas e os sinais de sentido “poribido”, mais uns quantos muitos que sabiam ler e escrever, mas não sabiam interpretar, a percentagem vai subindo por aí fora.

Quando finalmente conseguimos que este país tivesse uma taxa de alfabetização/literacia razoavelmente aceite num país civilizado, quando devíamos estar a consolidar estes dados, porque a ilteracia ainda é relativamente elevada, aparecem-nos uns martelões ou castelões ou lá o que é, vindos de Malta ou Malaca, sei lá, a dizerem-nos que isto vai mudar outra vez. Rapaziada, toca a dançar o vira e toca o mesmo.

Aposto que este tipos vindos de Malaca estavam a jogar scrabble e um deles vendo-se sem mais peças, resolve encurtar a palavra retirando-lhe uma consoante muda. O seu opositor contesta dizendo que a palavra está mal escrita. Então, o vingativo Pasteleiro de Macaca diz: se não existe, vai existir. Queres apostar?

Eu farto-me de dizer que não tenho nada contra este Acordo. Desde que ele não seja aplicado. Desde que ele fique muito bem guardadinho na gaveta. Os tipos de Malaca podem continuar na boa a jogar scrabble que eu não me importo nada. Por mim, até podem escrever um acordo novo todos os anos. Sempre se vão entretendo e pode ser que, deste modo, nos deixem em paz.

Se repararmos bem, a galera no Brasil, excepto os organismos oficiais, também se está a borrifar para o acordo. Eles vão continuar, e bem, a escrever da forma que aprenderam. Aliás, tal como eu. Continuarei a escrever como sempre o fiz.

A sensação que tenho é que os verdadeiros, os mais acérrimos defensores do NAO são pessoas que simplesmente não lêem. Ou melhor, lêem, mas apenas jornais, revistas, textos na internet, ou seja, nada que se prolongue por mais de 30/40 minutos. Livros, e aqui refiro-me à literatura, não lêem nenhum. Quanto muito poderão ler um livro técnico sobre música, cinema, culinária, botânica, metalomecânica, merdas assim. Claro que aqui estou a excluir, por razões óbvias, aqueles que estão directamente ligados a interesses editoriais (vendas de dicionários e similares).

Agora lembrei-me de outro “argumento” dos pós-modernos: que a língua está viva e evolui, que não pode ficar presa a conceitos bafientos. Com a primeira parte concordo, está viva e recomenda-se. E evolui por si mesma, não é preciso virem uns gajos de Malaca colocar isso por escrito para ser verdade. A língua naturalmente absorve e anula os vocábulos por isso mesmo, porque está viva. Tal como um qualquer elemento biológico, vai crescendo e ao mesmo tempo vai largando bocadinhos de pele seca. Quanto à parte bafienta vejamos as coisas deste modo.

Quando olhamos para uma cidade bem organizada, vemos que tem um centro histórico bem conservado, tem património histórico apreciado por quem lá vive e por quem visita. Mas essa cidade necessita de crescer para continuar viva e produtiva. O que fazer? Demolir as casas velhas do centro e construir umas novas em cimento para que desapareça o cheiro a bafio? Ou será melhor manter essas casas preservando a traça original de todo o centro, fazendo com que a cidade cresça à volta desse centro? Basta vermos as principais cidades por essa Europa fora. Os centros históricos são a parte viva dessas cidades, onde existe mais movimento, onde tudo acontece. À volta deles cresceram novos centros, mas não destruíram a raiz onde tudo começou. Vivem em plena harmonia: o centro histórico e as zonas novas à sua volta.

Isto de generalizar é lixado, não é? Mas ajuda a separar as águas. Atchim… o raio desta alergia aos pós não me larga.

[Agora a ironia: como escrevi isto no Word onde não tenho corrector de português de Portugal, para ver se existem gralhas tenho de fazer um varrimento com o corrector português do Brasil. Ora toma que já almoçaste.]

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4 comentários leave one →
  1. Fevereiro 11, 2012 22:15

    olha aqui

    o tipo é de direita mas tem uma graça danada e, no essencial, está certo, certíssimo

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  2. Fevereiro 11, 2012 23:57

    “O Houaisse conhecia as palavras todas, só não sabia era juntá-las” ahahahah
    Certíssimo.

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    • pedro matos permalink
      Fevereiro 14, 2012 17:11

      Concordo consigo, e vou mais longe: por via de regra, quanto maior a iliteracia, maior o fervor em defesa do acordo ortográfico.

      Ocorre neste caso uma espécie de inversão da parábola de salomão.
      O árbitro – os sucessivos governos responsáveis por esta barbaridade, e, por fim, o próprio parlamento – decidiu entregar a língua portuguesa já esventrada aos que menos gostam e precisam dela.

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  3. Fevereiro 14, 2012 18:22

    E não só aos que menos gostam, Pedro, pela minha experiência, entregaram também aos que a mais maltratam. Das pessoas que conheço pessoalmente, aquelas que mais erros dão, transformam-se em acérrimos defensores do Acordo. E só lêem jornais e revistas, claro.

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