No Vazio da Onda

É infalível. Num livro, o princípio nunca engana

«Livraria Portugal

Saí de casa para ir à Livraria Portugal, que vai fechar, depois de 70 anos de história. Saboreei cada passo até lá. Entrei e pus-me a folhear livros ao acaso, até ficar com o cérebro em brasa. Gosto de fazer isso, é uma droga como qualquer outra. Há outro jogo que também me diverte: abrir livros sem lhes ver a capa. Ler a primeira frase e adivinhar o autor. É raro acertar, a menos que já tenha lido o livro. Mas tento. O prémio de consolação é predizer se o livro é bom ou mau. Aí acerto sempre.

Por exemplo, este: “Um estrépito de camiões, abarrotados de espingardas, submergia Madrid, tensa, na noite de Verão.” Que tal? Irresistível. Autor? Malraux. Outro volume. Primeira página: “Estou a viver na Vila Borghese. Não há um grãozinho de pó em lado nenhum, nem uma cadeira fora do lugar. Estamos aqui sozinhos e estamos mortos.” É bom? Se é. Henry Miller.

Como será uma cidade sem livrarias? Já conheci algumas, mas não lhes chamaria assim. São aglomerados ou dormitórios. Por vezes assemelham-se a enormes fábricas. Certas povoações têm livrarias más. E não são melhores. Começo sempre pelas livrarias, quando visito uma cidade. Se gosto delas, é certo que gostarei do resto. Tal como nos livros: se me agrada o princípio…

Outro: “O céu devia estar cheio de rezas e choros, porque nessa tarde condensou a água de repente e choveu tudo duma vez. Fez-se escuro como a pele de um rato e, minutos depois, largou o peso na terra.” Só me sai material bom. Quem é? Rui Cardoso Martins.

Quando era adolescente trabalhei, nas férias, numa empresa que fazia leilões de livros. Apareciam coleccionadores de todo o mundo. Um italiano chamou a minha atenção. Tinha uns 40 anos, vestia fatos de designers, e o que fazia era viajar pelo mundo, de cidade em cidade, visitando livrarias. De vez em quando, comprava um livro, contou-me ele. Um livro que, segundo o seu instinto apurado, poderia valer muito mais noutra cidade do mundo. A seguir voava para lá. Como tinha os contactos certos, não lhe custava encontrar, por exemplo em Nova Iorque, o coleccionador que pagaria cinco mil dólares pelo alfarrábio que lhe custara 100 em Paris. Vivia assim o italiano. Viagens, cidades, livros. Podia fazer isto porque sabia muito de bibliofilia. Sabia tudo. Durante algum tempo, sonhei ter aquela profissão.

“O noivo aproximou-se-lhe da boca, a princípio encontrou os dentes, mas logo ela parou de rir e as línguas se tocaram diante do fotógrafo.” Eis um princípio genial. Lídia Jorge. Peguei noutro livro. “Jacques Saunière, o conceituado conservador, atravessou a cambalear o arco abobadado da Grande Galeria. Estendeu as mãos para o quadro mais próximo, um Caravaggio…” Que mau. Quem? Dan Brown. Outro, rápido, para desenjoar: “Sou Myra Breckinridge, aquela que nenhum homem possuirá jamais.” Isto sim. Gore Vidal.

“Ao entrar pelo porto de Nova Iorque no navio já lento, Karl Rossmann, rapaz de dezassete anos que havia sido mandado para a América pelos pais, gente pobre, porque uma criada o seduzira e dele tivera um filho, viu a estátua da deusa da Liberdade, que observava havia já bastante tempo, como se a luz do dia subitamente se tivesse tornado mais intensa.” Ora aqui está toda uma história. Excelente. Kafka.

Só mais um. “A nossa época é essencialmente trágica, e, por isso, recusamo-nos a vivê-la como tragédia.” Estou com sorte. D. H. Lawrence. É infalível. Num livro, o princípio nunca engana.»

Paulo Moura in Público, 29 Janeiro 2012

[obrigado, Manuela Costa]