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Águia enfrenta dragão

Janeiro 27, 2012

« “Ele está longe; vejo-lhe o perfil a andar por um estreito caminho. Aonde irá com aquele passo pesado? Nem ele o sabe… No entanto, creio que não estou a dormir: quem será aquele que se aproxima e vai ao encontro de Maldoror? Como é grande o dragão… maior que um carvalho! Dir-se-ia que as suas asas esbranquiçadas, unidas por fortes ligamentos, têm nervos de aço, tal a facilidade com que cortam o ar. O seu corpo começa por um busto de tigre e acaba numa longa cauda de serpente. Não estava habituado a ver destas coisas. Mas que tem ele na testa? Está lá escrita numa língua simbólica uma palavra que não sou capaz de decifrar. Com um último golpe de asa juntou-se àquele cujo timbre de voz conheço. Disse-lhe: ‘Esperava-te, e também tu me esperavas. Chegou a hora; eis-me aqui. Lê-me na testa o meu nome escrito em sinais hieroglíficos’. Mas ele, mal viu chegar o inimigo, transformou-se numa águia imensa e prepara-se para lutar, dando estalidos de contentamento com o bico curvo, querendo dizer com isso que por si só se encarrega de comer a parte posterior do dragão. Ei-los que traçam círculos de concentricidade cada vez menor, espiando os seus recíprocos movimentos, antes de lutarem; fazem bem. O dragão parece-me mais forte; gostava que conquistasse a vitória sobre a águia. Vou experimentar grandes emoções, neste espectáculo em que está comprometida uma parte do meu ser. Ó poderoso dragão, eu te incitarei com os meus gritos, se for necessário, pois é do interesse da águia ser vencida. Por que esperavam eles para se atacarem? Estou em transes de morte. Vá lá, dragão, começa, primeiro tu, ataca. Acabas de lhe vibrar um seco golpe com as garras; não está lá muito mal. Garanto-te que a águia o sentiu; o vento leva-lhe a beleza das plumas, manchadas de sangue. Oh! a águia arranca-te um olho com o bico, e tu apenas lhe tinhas arrancado a pele; era preciso estar com atenção a isso. Bravo, vinga-te, e parte-lhe uma asa; não há nada a dizer, os teus dentes de tigre são muito bons. Se te pudesses aproximar da águia, enquanto ela volteja no teu espaço, descendo para o campo! Estou a notar que esta águia inspira moderação mesmo quando cai. Agora que está no chão e não poderá tornar a levantar-se. Vai a voar à flor da terra à volta dela, e com golpes da tua cauda de escamas de serpente acaba com ela, se puderes. Coragem, belo dragão; crava-lhe as tuas garras vigorosas, e que o sangue se misture ao sangue, para formar regatos onde não haja água. É fácil dizer, mas não de fazer. A águia acaba de meditar um novo plano estratégico de defesa, tornado possível pelos malfadados acasos desta memorável luta; é prudente, ela. Sentou-se solidamente numa posição inabalável, na asa que lhe resta, nas duas coxas e na cauda que antes lhe servia de leme. Desafia esforços mais extraordinários do que aqueles que até agora lhe opuseram. Umas vezes volta-se tão depressa como o tigre, sem mostrar cansaço; outras, deita-se de costas, com as patas para o ar, e, com sangue-frio, contempla ironicamente o adversário. No fim de contas hei-de saber quem será o vencedor; o combate não pode eternizar-se. Imagino as consequências que disto resultarão! A águia é terrível e dá saltos enormes que abalam a terra, como se fosse levantar voo; mas sabe que isso lhe é impossível. O dragão não se fia; julga a cada momento que a águia vai atacá-lo pelo lado onde lhe falta o olho… Pobre de mim! É isso mesmo que acontece. Como é que o dragão se deixou apanhar pelo peito? Em vão utiliza a força e a astúcia; estou a ver a águia, colada a ele por todos os seus membros como uma sanguessuga, e que, apesar dos ferimentos que vai sofrendo, crava o bico cada vez mais fundo, até à raiz do pescoço, no ventre do dragão. Só se lhe vê o corpo. Parece estar à vontade; não tem pressa de sair. Está com certeza à procura de alguma coisa, enquanto o dragão de cabeça de tigre solta bramidos que acordam as florestas. Lá está a águia a sair daquela caverna. Ó águia, como estás horrível! Estás mais vermelha do que um charco de sangue! Embora segures no bico nervoso um coração palpitante, estás de tal modo coberta de feridas que mal te podes suster nas patas emplumadas; e cambaleias sem abrires o bico, ao lado do dragão que morre em medonhas agonias. Foi difícil, a vitória; mas não importa, foste tu que a conquistaste: ao menos, diga-se a verdade… E ages segundo as normas da razão, agora que te despojas da forma de águia, enquanto te afastas do cadáver do dragão. E assim venceste, Maldoror! Assim venceste a esperança, Maldoror! A partir de agora, o desepero há-de alimentar-se da tua substância mais pura! A partir de agora, voltas, em passos decididos, para a carreira do mal! Embora eu esteja, digamos assim, insensibilizado à dor, o último golpe que vibraste no dragão também em mim se fez sentir. Avalia tu mesmo como eu sofro! Mas fazes-me medo. Olhem, olhem ao longe, aquele homem a fugir; sobre ele, ó terra excelente, estendeu a maldição da sua folhagem densa, ele é maldito e maldiz. Até onde levas tu tuas sandálias? Aonde vais, hesitante como um sonâmbulo em cima de um telhado? Que o teu perverso destino se cumpra! Adeus Maldoror! Adeus até à eternidade, onde não nos encontraremos os dois!”»(pp. 97-99)

Cantos de Maldoror [Les chants de Maldoror]Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont (Tradução de Pedro Tamen, Ed. Fenda)

2 comentários leave one →
  1. Janeiro 27, 2012 19:51

    Até nos clássicos há imparcialidade. E depois dizem que somos nós. Cambada!!
    😉

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    • Janeiro 27, 2012 20:22

      eheheh, É nos clássicos que está a verdade.
      Andava há muito para colocar este excerto. Parece-me que este ano faz sentido 🙂

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