«Era um dia quente de Verão. Fui até ao parque próximo do quartel de bombeiros abandonado, onde costumo poder sentar-me em paz. Mas ainda mal me havia sentado quando apareceu um velhote da minha idade e se sentou a meu lado, ainda que não faltassem bancos livres. É bem verdade que tinha saído porque me sentia só, mas não com a intenção de falar, apenas para mudar de ambiente. Estava cada vez mais nervoso com medo que ele dissesse alguma coisa, pensei até em levantar-me e ir-me embora, mas para onde haveria de ir, se este era o lugar para o qual tinha decidido vir. Mas não disse nada, o que me pareceu tão simpático da sua parte que fiquei de bom ânimo em relação a ele. Tentei inclusive observá-lo, sem que se apercebesse, claro. Mas acabou mesmo por se aperceber, porque disse:
– Vai ter de me desculpar por dizer isto, mas sentei-me aqui porque pensei que fosse deixar-me em paz. Se quiser, posso mudar de sítio.
– Pode ficar – disse eu, algo perplexo. É claro que não fiz mais nenhuma tentativa de observá-lo, ele tinha o meu mais profundo respeito. Como é óbvio também, não lhe falei. Senti algo de estranho por dentro, uma não-solidão, uma espécie de bem-estar.
Ficou no banco uma meia hora e depois levantou-se, não sem alguma dificuldade, voltou-se para mim e disse:
– Obrigado. Adeus.
– Adeus.» (pp. 210)
Um repentino pensamento libertador [En plutselig frigjørende tanke], Kjell Askildsen (Tradução de Mário Semião, Ed. Ahab)