«Vivo numa cave; o que é o resultado de toda a minha vida ter ido por água abaixo, em todos os sentidos da expressão.
O meu quarto não tem mais do que uma janela, e apenas a parte superior desta se encontra acima do passeio; isso faz com que eu veja o mundo exterior a partir de baixo. Não é um mundo grande, mas com frequência tenho a sensação de que é grande quanto basta.
Apenas vejo as pernas e a parte inferior do corpo das pessoas que andam pelo passeio no meu lado da rua, mas depois de quatro anos a viver aqui, sei, na maioria dos casos, a quem pertencem. Isto deve-se ao facto de aqui haver pouco trânsito – vivo quase no fim de uma rua sem saída.
Sou um homem de poucas palavras, mas por vezes falo sozinho. O que digo nessas ocasiões são coisas que me parecem ter de ser ditas.
Um dia, ao ver passar a parte inferior do corpo da mulher do senhorio enquanto estava junto à janela, senti-me repentinamente tão só que decidi sair.
Enfiei os sapatos e o casaco e, por precaução, meti os óculos para ler no bolso do casaco. Então saí. A vantagem de viver numa cave é que se sobe quando se está fresco e se desce quando se chega a casa cansado. Creio que é a única vantagem.» (pp. 209)
Um repentino pensamento libertador [En plutselig frigjørende tanke], Kjell Askildsen (Tradução de Mário Semião, Ed. Ahab)
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