“Breviário das Más Inclinações”
«Depois de se ter deitado com um homem, lavava-se sempre numa infusão de folhas de arruda, apanhadas ao luar, e bebia tisanas com sementes de funcho e de sargacinha-do-montes, para que as regras não lhe faltassem. De maneira que nos dois meses seguintes à noite em que encontrou na eira uma maçaroca de milho-rei, não acreditou que estivesse grávida, mas que a ausência do sangue se devesse a qualquer desarranjo, ou a ter olhado para dentro do forno enquanto o pão crescia.
Ao sentir as primeiras dores, na manhã do dia do parto, a mãe colocou-lhe um chapéu na cabeça para que não tivesse complicações. Tudo estava já preparado e pronto: trazido o catre para a cozinha (e deixado perto da lareira onde a água fervia em dois alguidares de latão), sacudido e virado o colchão de folhas de milho, e mudados os lençóis. Pouco tempo depois dos primeiros sinais, a mãe chamou a comadre que ajudara a nascer metade da aldeia; matou um galinha gorda para lhe retirar a enxúndia com que a parteira untou as mãos e os braços, e encheu com a almoltolia do azeite a candeia que colocou na mesa, depois de ter fechado todas as portas e janelas da casa.»
(…)
Breviário das Más Inclinações, José Riço Direitinho (Ed. Quetzal)
