No Vazio da Onda

Uma refeição leve para alguém esfomeado

«Um almoço de folhas de alface, ananás e queijo fresco. Sentado à mesa da cozinha, com um guardanapo cor-de-rosa sobre os joelhos, comeu com a suspeita de que aquilo era uma piada, de que a viúva estava a mangar com ele. Mas ela comeu também, e com tanto apetite que dir-se-ia estar a apreciar a refeição. Se Maria alguma vez lhe pusesse à frente aquele tipo de comida, ele atiraria com o prato pela janela fora. A seguir, a viúva serviu-lhe um chá numa chávena de porcelana fina. No pires havia duas bolachinhas brancas, do tamanho de uma unha do polegar. Chá e bolachinhas. Diavolo! Para Bandini, beber chá era sinal de efeminação e fraqueza, e além disso não apreciava doces. Mas a viúva, trincando a bolacha que segurava com as pontas dos dedos, sorriu-lhe amavelmente, enquanto ele despachava as dele como quem engole pílulas.
Muito antes de terminar a segunda bolacha, já ele tinha bebido o chá até ao fim. Recostou-se, equilibrado sobre as pernas traseiras da cadeira, com o estômago a mugir e a protestar contra aqueles estranhos visitantes.» (p. 155)
(…)
A Primavera há-de chegar, Bandini [Wait Until Spring, Bandini], John Fante (Tradução de Rui Pires Cabral, Ed. Ahab)