No Vazio da Onda

“O Escrivão Público”

“Nunca andei à pancada. Nem sequer com o meu irmão. Dar e receber murros e pontapés, agitar-me para os esquivar, para me defender, atirar o corpo para diante correndo o risco de o danificar, rebolar no chão no meio do pó e das pedras, magoar-me, lutar com todas as forças para vencer, para levar a melhor, levantar-me a suar, emocionado e orgulhoso com a vitória, andar com segurança sem olhar para trás, conservar a camisa rasgada e limpar negligentemente o sangue que devia ter escorrido do nariz, ir-me embora como vencedor sob o olhar admirativo dos miúdos, isso, eu nunca conheci.
Criança doente, eu sonhava a vida. Passei mais de três anos deitado de costas, numa grande alcofa, a olhar o céu e perscrutar o tecto. Depressa me cansava das nuvens; preferia o céu vazio. Quanto ao tecto de madeira pintada, não excitava muito os meus devaneios. Olhava para ele sem o ver. À força de lhe fixar os arabescos, inventava outros, mais complexos e sobretudo menos lógicos. Os meus olhos acumulavam aqueles motivos repetitivos e trémulos; desarranjava-os, rompia-lhes a ordem e a simetria. Criava, durante todo o dia, signos movediços e delicados, reunia-os numa desordem extravagante e depositava-os em seguida no mosaico dos azulejos decorativos incrustados nas paredes. Às vezes guardava-os dentro de mim; levava-os para o meu sono, como premissas do sonho. As minhas noites eram compridas e ricas.»
(…)
O Escrivão Público [L’écrivain public], Tahar Ben Jelloun (Tradução de Maria do Rosário Mendes, Ed. Cavalo de Ferro)