Saltar para o conteúdo

“Memória do Fogo – os nascimentos”

Agosto 29, 2011

«A criação

A mulher e o homem sonhavam que Deus estava sonhando com eles.
Deus sonhava com eles enquanto cantava e agitava as suas maracas, envolto em fumo de tabaco, e sentia-se feliz e também perturbado pela dúvida e pelo mistério.
Os índios makiritare sabem que se Deus sonha com comida, frutifica e dá de comer. Se Deus sonha com a vida, nasce e dá nascimento.
A mulher e o homem sonhavam que no sonho de Deus aparecia um grande ovo brilhante. Dentro do ovo, eles cantavam e bailavam e armavam grande alvoroço, porque estavam loucamente ansiosos por nascer. Sonhavam que no sonho de Deus a alegria era mais forte do que a dúvida e o mistério; e Deus, sonhando, criava-os, e cantando dizia:
– Parto este ovo e nasce a mulher e nasce o homem. E juntos viverão e morrerão. Porém, eles nascerão novamente. Nascerão e voltarão a morrer e outra vez nascerão. E nunca deixarão de nascer, porque a morte é mentira.

O tempo

O tempo dos maias nasceu e teve número quando não existia o céu nem a terra tinha ainda despertado.
Os dias partiram do oriente e puseram-se a caminhar.
O primeiro dia tirou das suas entranhas o céu e a terra.
O segundo dia fez a sua escalada por onde cai a chuva.
Obras do terceiro foram os ciclos do mar e da terra e a multidão das coisas.
Por vontade do quarto dia, a terra e o céu inclinaram-se e puderam encontrar-se.
O quinto dia decidiu que todos trabalhassem.
Do sexto saiu a primeira luz.
Nos lugares onde não havia nada, o sétimo dia pôs terra. O oitavo cravou na terra as suas mãos e os seus pés.
O nono dia criou os mundos inferiores. O décimo dia destinou os mundos inferiores a quem tenha veneno na alma.
Dentro do sol, o décimo primeiro dia modelou a pedra e a árvore.
Foi o décimo segundo quem fez o vento. Soprou vento e chamou-lhe espírito, porque não havia morte dentro dele.
O décimo terceiro dia molhou a terra e com barro formou um corpo como o nosso.
Assim se recorda no Yucatão.»

Memória do Fogo – os nascimentos, Eduardo Galeano (Tradução de António Marques, Ed. Livros de Areia)

 A partir de meados de Setembro no mercado

8 comentários leave one →
  1. Bípede falante permalink
    Agosto 29, 2011 22:35

    Seria um alívio para a humanidade se deus a esquecesse.
    beijos

    Gostar

    • Agosto 29, 2011 23:56

      Lelena, às vezes olhando para as notícias tenho a sensação que já o fez 😉
      bjs

      Gostar

  2. Agosto 14, 2013 18:58

    irado

    Gostar

Trackbacks

  1. A história que será | No Vazio da Onda
  2. E as lâmpadas apagaram-se | No Vazio da Onda
  3. O mundo está calado e chove | No Vazio da Onda
  4. O Amor | No Vazio da Onda
  5. Canção de guerra dos incas | No Vazio da Onda

Preencha o vazio:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: