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Os começos dos livros

Abril 23, 2011

Este livro trata sobretudo da história de um homem que viveu a maior parte da sua vida na Europa ocidental, durante a segunda metade do século XX. (1) Nunca se saberá como se deve contar isto, se na primeira pessoa ou na segunda, usando a terceira do plural ou inventando continuamente formas que de nada servirão. (2) Qualquer maneira de começar é uma boa maneira de começar. (3)

Tratem-me por Ismael. (4) Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. (5) Isto começou assim. Eu cá nunca tinha dito nada. Nada. Foi o Arthur Ganate quem me fez falar. (6) Se estão mesmo interessados nisto, então a primeira coisa que devem querer saber é onde é que nasci, e como foi a porcaria da minha infância, o que faziam os meus pais e tudo antes de eu ter nascido, e toda essa treta estilo David Copperfield, mas não estou nada para aí virado, para dizer a verdade. (7) A minha mãe e o meu pai eram ainda duas crianças quando se casaram. Ele tinha dezoito, ela tinha dezasseis e eu três anos. (8) Como se haviam encontrado? Por acaso, como toda a gente. Como se chamavam? Que vos interessa isso? Donde vinham? Do lugar mais próximo. Para onde iam? Sabe alguém para onde vai? (9) Nasci na cidade de Bombaim… um certo dia. (10) Pertenço a uma das mais antigas famílias de Orsenna. (11) Nunca tive sorte com as mulheres, suporto com resignação uma penosa corcova, todos os meus familiares mais próximos morreram, sou um pobre solitário que trabalha num escritório pavoroso. (12) Sou um homem doente… Sou um homem mau. Um homem repulsivo, é isso que eu sou. (13)

Durante muito tempo fui para cama cedo. (14) Essa noite eu tive um sonho. Grande bobagem, nada disso. Não era assim que eu queria começar, não é assim. Essa noite eu tive um sonho – parece diário de colégio de freiras, não é nada disso. Mas, de fato, eu tive um sonho. (15) Hoje aconteceu-me uma aventura invulgar. Levantei-me bastante tarde e, quando Mavra me trouxe as botas engraxadas, perguntei-lhe as horas. (16) Aconteceu-me qualquer coisa: já não posso duvidar. Qualquer coisa que veio à maneira duma doença, não como uma vulgar certeza, não como uma evidência; que se instalou sorrateiramente, pouco a pouco. (17) Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe? (18) Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste… (19)

Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram, começados no princípio da minha primeira idade, e continuados pela maior parte e melhor tempo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da ventura que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me e maltratar-me. (20)

O meu pai possuía uma pequena fazenda no condado de Nottingham; eu era o terceiro dos seus cinco filhos. Quando tinha catorze enviou-me para o colégio universitário de Cambridge, onde residi durante três anos, consagrados inteiramente aos meus estudos. (21) Como estou contente por ter partido! Ah!, meu amigo, o que é o coração do homem? (22) Estávamos na sala de estudo quando o director entrou, seguido de um caloiro sem uniforme e de um contínuo que transportava uma grande carteira. Os que estavam a dormir acordaram e todos se puseram em pé como se tivessem sido surpreendidos a trabalhar. (23) Deram-me um castigo. Foi o Joswig em pessoa quem me trouxe para o meu quarto de isolamento, inspeccionou as grades das janelas, apalpou o enxergão e, a seguir, o nosso vigilante preferido passou em revista o meu armário de metal e o meu velho esconderijo atrás do espelho. (24) Não estranhei o ar glacial e pestilento, nem as paredes pegajosas de humidade, nem as abóbadas profundas e esfumeadas dos corredores, que me conduziram ao meu quarto. (25) Enquanto escrevo, anoitece e as pessoas preparam-se para jantar. (26)

Enfim, eis-me de regresso após quinze dias de ausência. (27) Começa um ciclo novo; os primeiros caules verdes atravessam como setas as últimas folhas secas do Outono passado. (28)

— # —– # —

Após já ter colocado vários inícios de livros, e para celebrar o Dia Mundial do Livro, resolvi juntar alguns e construir um texto. Para ver a que livro pertence cada início basta clicar no número que está entre parêntesis.

3 comentários leave one →
  1. Abril 23, 2015 16:34

    😉

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Trackbacks

  1. Corta e cola | No Vazio da Onda

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