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O fantasma de Ulisses

Fevereiro 25, 2011

Um livro que é uma festa de cultura literária e uma inteligente e talentosa reflexão sobre o anunciado fim da literatura

O catalão Enrique Vila-Matas (n. 1948) – a par de Javier Marías, este num registo muito diferente – tem sido a vanguarda da renovação da narrativa espanhola desde há anos. Sem nunca se desviar muito das suas principais preocupações estéticas e intelectuais, e dos temas que lhe são caros – a identidade, as coincidências, os ténues limites que separam a vida e a literatura, a viagem literária, os escritores, os úteis jogos do acaso, o aparecimento (e o desaparecimento) de personagens fantasmagóricas – tem vindo a construir uma obra singular e tão homogénea que por vezes um livro parece ser uma espécie de reescrita, ou talvez melhor, de continuação, do livro anterior; ou então, todos são apenas capítulos avulso de uma obra que parece querer cumprir um programa.

No seu último livro, “Dublinesca” (o título remete-nos de imediato para o fantasma de James Joyce e a sua colecção de contos, “Dubliners”), Enrique Vila-Matas não se desvia da linha orientadora da sua obra. E mais uma vez, aventura-se pela metaficção – se esta for entendida não apenas como um texto que expõe os seus mecanismos de feitura, mas também aquele que reflecte sobre o “literário” e se constrói de citações, de referências a livros e a autores não ficcionados. “Dublinesca”, que usa o espesso magma da tradição literária e da vida dos seus autores (não deve haver uma página em que um autor não seja referenciado – desde Yeats a Bolaño, passando por Céline, Magris, Claus, entre dezenas de outros), é uma reflexão sobre o possível fim da literatura, dos leitores interessados e interessantes, e também dos “verdadeiros escritores”: a literatura é apresentada como uma “arte em perigo”, condenada ao desaparecimento. E tudo isto porque “o bezerro de ouro do romance gótico [e de outros best-sellers] forjou a estúpida lenda do leitor passivo”. Mas o que a princípio pode parecer uma reflexão apocalíptica vai-se tornando numa viagem esperançosa, pois para o protagonista o “apocalipse da literatura” apenas pode ser representado de maneira paródica, e não trágica. E esse pode ser o sinal de esperança, da necessidade de uma mudança cultural (aquilo a que uma das personagens chama “o salto inglês” – a mudança de uma cultura “parisiense” para uma cultura “nova-iorquina”), para refrescamento e “refazer o entusiasmo”.

Vila-Matas, não se afastando da forma tradicional do romance psicológico (e também de ideias), conta-nos a história de Samuel Riba, homem de sessenta anos, judeu por parte de mãe, que gosta de se ver a si próprio “como o último editor” culto e literário. Para evitar a falência, fechou há dois anos a editora em que ao longo da vida foi construindo um prestigiado catálogo. Numa recente viagem a Lyon, Riba (assim é conhecido no mundo literário) conseguiu fabricar uma teoria geral do romance, assente em cinco pontos, e inspirada no livro de Julien Gracq, “Le Rivage des Syrtes”. Apesar de tudo, na sua vida continua a lamentar não ter “descoberto um autor desconhecido que tivesse acabado por se revelar um escritor genial”; e este génio é ao longo do livro uma espécie de presença fantasmagórica. Desde que fechou a editora, Riba foi-se isolando socialmente, passando agora horas e horas fechado diante do computador, perdendo o entusiasmo. Lê blogues, consulta o Google, e recebe correio electrónico. Um dos emails recebidos é de uma amiga francesa, Dominique, que anda a preparar uma instalação em que procura construir uma cultura apocalíptica da citação literária, “uma cultura de fim de trajecto”, uma estética do fim do mundo. Esta é uma atmosfera que Riba conhece bem, pois sente-se mergulhado nela há já algum tempo.

Para ele, a literatura como um organismo vivo, tinha chegado ao topo da sua vitalidade com o “Ulisses” de Joyce, e agora conhecia “o começo da dura decadência da forma física, o envelhecimento, a descida ao molhe oposto do esplendor de Joyce, a queda livre em direcção ao porto das águas turvas da miséria, aí onde nos últimos tempos, e desde há já muitos anos, passeia uma velha prostituta com uma coçada gabardina irrisória, na ponta de um molhe varrido pela tempestade e o vento.” Também Beckett (outro “dubliner”) é convocado.

Então, Riba tem a ideia de ir a Dublin no “Bloomsday” (mais uma viagem literária, como são todas as de Vila-Matas) fazer o elogio fúnebre da “era Gutemberg”. E inspira-se, obviamente, nas cerimónias de passamento do célebre sexto capítulo do “Ulisses”, de Joyce, em que a personagem Bloom, às 11 da manhã do dia 16 de Junho de 1904 (o “Bloomsday”), participa juntando-se ao grupo que vai ao cemitério despedir-se do “morto do dia”, e atravessa Dublin num carro onde vão Dedalus, Cunningham e Power, que olham Bloom como se este fosse um forasteiro, sabendo-o judeu e mação. Samuel Riba (o Bloom de Vila-Matas) faz-se também acompanhar a Dublin por três amigos, todos escritores.

A cada novo livro Enrique Vila-Matas continua ainda a surpreender os leitores. “Dublinesca” (que para muitos é o seu melhor romance) é também uma espécie de epopeia da vida quotidiana (ou o fantasma de Joyce não sobrevoasse toda a história), mas no fim parece deixar uma estranha sensação de uma esperada epifania que acaba por não acontecer.»

José Riço Direitinho in Ípsilon

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2 comentários leave one →
  1. Fevereiro 25, 2011 16:49

    «…mas no fim parece deixar uma estranha sensação de uma esperada epifania que acaba por não acontecer.»

    Acontece em «Perder teorías», o tal ensaio escrito em Lyon, logo no início de «Dublinesca» 😉

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    • Fevereiro 26, 2011 01:13

      Aí está, a epifania acontece logo no início… eu sabia 😉
      Estou muito curioso para ler este livro.

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