Saltar para o conteúdo

“Três contos”

Setembro 10, 2010

«Um coração simples

Durante quase meio século, os burgueses de Pont-l’Evêque invejaram a Mme Aubin a sua criada Félicité.
Por cem francos ao ano, cozinhava, tratava da casa, cosia, lavava, engomava, sabia aparelhar um cavalo, cuidar da criação, bater a manteiga, e manteve-se fiel à sua senhora – embora ela não fosse uma pessoa agradável.
Tinha casado com um belo rapaz sem fortuna, falecido no princípio de 1809, que lhe deixou dois filhos de tenra idade e uma quantidade de dívidas. Vendeu então os seus imóveis todos menos a quinta de Toucques e a quinta de Geffosses, que lhe rendiam, quanto muito, uns 5000 francos, e deixou a casa de Saint-Melaine para ir habitar uma outra, menos dispendiosa, que tinha pertencido aos seus antepassados e ficava por trás do mercado.
Essa casa, revestida a ardósia, situava-se entre um beco e uma ruela que ia dar ao rio. Por dentro, tinha diferenças de nível que faziam tropeçar. Um estreito vestíbulo separava a cozinha da sala, onde Mme Aubin passava o dia inteiro, sentada à janela, num cadeirão de palha. Ao longo do lambril, pintado de branco alinhavam-se oito cadeiras de acaju. Sobre um velhom piano, por baixo do barómetro, uma pilha de caixas e latas. Dos lados da lareira, de mármore e estilo Luis XV, duas pastoras em tapeçaria. O relógio de sala, no meio, representava um templo de Vesta – e todo o aposento cheirava um pouco a bafio, porque o soalho ficava abaixo do jardim.»
(…)
Três contos, Gustave Flaubert (Tradução de Telma Costa, Ed. Teorema)

Preencha o vazio:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: