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“No café da juventude perdida”

Maio 17, 2010

«Das duas entradas do café, ela utilizava sempre a mais estreita, a chamada porta da sombra. Escolhia a mesma mesa, ao fundo da pequena sala. Nos primeiros tempos, não falava a ninguém, depois travou conhecimento com os clientes habituais do Condé, a maioria dos quais tinha a nossa idade, entre dezanove e vinte e cinco anos, diria eu. Às vezes, sentava-se nas suas mesas, mas em geral, mantinha-se fiel ao seu lugar, bem ao fundo.
Não tinha hora certa para chegar. Podia encontrar-se lá de manhã muito cedo. Ou então surgir por volta da meia-noite e ficar até à hora do encerramento. Era o café do bairro que fechava mais tarde, juntamente com o Bouquet e o Pergola, e o que tinha a clientela mais estranha. Com o tempo, pergunto-me se não seria precisamente a sua presença que conferia ao local e às pessoas aquela estranheza, com se as tivesse impregnado do seu perfume.
Suponhamos que tínhamos sido transportados para ali de olhos vendados, instalados a uma mesa, libertos da venda e deixados à vontade durante alguns minutos antes de responder à pergunta: Em que bairro de Paris nos encontramos? Talvez bastasse observar os vizinhos e ouvir as conversas para adivinhar. Nas imediações do carrefour de l’Odéon, que continuo a imaginar sempre nostálgico debaixo de chuva.
Certo dia, um fotógrafo entrou no Condé.»
(…)
No Café da Juventude Perdida [Dans le café de la jeunesse perdue], Patrick Modiano (Tradução de Isabel St. Aubyn, Ed. Asa)

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