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“A Fenda Erótica”

Janeiro 22, 2010

«Eu era rapazinho quando Maruja entrou na minha vida. Apareceu a morar com os avós num andar do meu prédio. E era ruiva, via-se que ninguém conseguia domar aquela imensa rama de cabelos que chispava, feroz, em torno da pele melada e dos olhos muito azuis. Usava golas brancas brancas, quadradas sobre as costas, de modo a por assim dizer exibir prova das suas ascendências marinheiras. O pai, contava ela, morrera num naufrágio, deixara-se afundar junto com o navio. E ela própria já dera a volta ao mundo. Sobre a mãe não falava e, como tinha o dom tão raro nas crianças de inspirar confiança e esfriar tentativas de mais intimidade, nunca nenhum de nós lhe perguntou por ela. À Maruja, as perguntas que podiam fazer-se eram sobre piratas ou ruelas chinesas – jamais sobre a família ou hábitos domésticos.
A princípio, assustava-me com ela. Dava-me a impressão de um excesso de cor, de uma pequena fúria. Cruzava-me com ela nas escadas e parecia-me ter que atravessar uma zona magnética de fascínio e de perigo. Eu era o mais novinho de toda a vizinhança, não tinha irmãos nem primos que me dessem conselhos e saía-me mal em todos os conflitos. Tinha em má conta os outros seres humanos.»
(…)
A Fenda Erótica, Hélia Correia (Ed. O Jornal)

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