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“A biografia de Lianor de Mileto”, Gonçalo M. Tavares

Janeiro 14, 2010

«O episódio é conhecido: contou-o Platão. Tales de Mileto, absorvido pelas ideias, olhava para o céu quando caiu a um poço. Uma criada trácia, muito simples, quase anafalbeta, presenciou a cena e desatou às gargalhadas.
Teimaram alguns historiadores em classificar de não verdadeira a anedota; outros reduziram-na a mera ilustração da conhecida distracção dos sábios.
Cumpre-nos, pois repor a verdade, e avançar um pouco. Tudo ocorreu como se conta e mais: a criadita, nesse instante, apaixonou-se por Tales de Mileto, o sábio.
A casa onde se vive é a outra parte do corpo; a roupa, essa, é a casa mais próxima. Nela, na criada, os tecidos eram pobres; nele, no sábio, eram desleixados. Entre os dois a diferença de quem se esquece da aparência – porque obcecado no que existe por detrás do sensível – e de quem não se pode lembrar dela, pois é desprovido de meios para a manter elevada, distinta.
O nome dela era Lianor. Acrescentamos: de Mileto. Haviam, pois, crescido na mesma cidade e no mesmo tempo, Lianor e Tales.
É costume entrarem em acordo com as idades, os tédios, mas nestas duas personagens, não: Lianor trabalhara desde sempre – e quem tem fome não tem filosofias nem angústias localizadas na alma. Tales, ao contrário, desde cedo começara a desenhar o seu destino de filósofo. Nele a sorte de ter nascido em leito alguns metros acima do chão.
Primeiro trabalho: preguiça.
Quisera tocar-lhe antes, mas só naquele momento o conseguiu: depois de terminar os risos, a criadita trácia – Lianor – estendeu a mão para o fundo do poço e puxou Tales de Mileto de novo para a terra, para a superfície; para o quotidiano.
“Quando o abrigo é seguro, a tempestade é boa”, e o certo é que o filósofo em nada se arrependeu da queda, tanto lhe agradou o medicamento: aquele calor terno e directo da mão da criada.
Por dias Lianor ganhou esperanças; cedo, porém, as perdeu. Dos filósofos e dos poetas sabe-se pouco; tem-se, no entanto, uma certeza: não são como os outros.
Se Procustes, o bandido de Ática, que depois de roubar os viajantes, os deitava numa cama de ferro, cortando-lhes os pés se estes fossem mais compridos que a cama, e esticando-os com cordas, no caso de serem mais pequenos; se dizíamos, Procustes, o bandido de Ática, aprisionasse um sábio ou um poeta, não teria dificuldades da sua impiedade, mas o que jamais conseguiria era normalizar-lhes as ideias, a imaginação e, acima de tudo, a vontade.
Para Tales, pessimista, o tempo trazia só um atributo: magreza à gordura, fraqueza à força.
Paixão significava casamento; e é precisamente o entusiasmo da noite que, mais tarde, nos ficará sem forças, de manhã; pensava ele.
Recusou então Lianor; não por sobranceria, mas por sabedoria. As mulheres guardam no corpo mais serpentes que cordeiros, sempre pensara.
Desespero em Lianor, claro, como em todas as mulheres rejeitadas.
Quis morrer afogada: atirou-se ao mar.
Tales interrompeu a sua tarefa de olhar o que não é possível ser olhado, com os gritos dos habitantes de Mileto:
Lianor desaparecera na águas!
Tales correu para a praia. Olhou para o fundo:
– Este mar matou – disse –. Está calmo de mais.
Indisciplinado por natureza, depois deste acontecimento, Tales transformou-se. Levantava-se então, todas as manhãs, a uma hora certa.
O que fazia então?
Ele, filósofo, o sábio, pegava no barco, cheio de arroz desde a véspera, e entrava no mar. À medida que avançava ia atirando arroz à água, como se esta fosse um ser esfomeado.
– Se os peixes e a água comerem arroz, os peixes e a água irão esquecer a carne de Lianor.
Era isto que pensava Tales, o sábio.
Durante 25 anos ele manteve, assim, o mar, alimentado com arroz. Jurava, no entanto, não o fazer por amor; era orgulhoso. Dizia:
– Sou um investigador da natureza. Quero estudar a água.
O certo é que o corpo de Lianor nunca apareceu.
As estações sucederam-se depois, como desde o início dos tempos, até que chegou o único dia que, juntamente com o nascimento, é comum a todos: o da morte.
Depois de mais uma saída no seu barco, Tales de Mileto morreu precisamente às 12 horas e 45 minutos. Não foi sábia, nem não sábia; foi morte: a carne ficou; a alma voltou para donde veio.
Ao fim da tarde um outro facto alvoraçou em definitivo o dia na cidade de Mileto.
O corpo de Lianor havia dado à costa.
Intacto.
Vinte cinco anos tinham passado, mas diz quem viu: havia um sorriso, um largo sorriso de amor, na cara do cadáver da única mulher que teve coragem para rir do maior sábio da cidade de Mileto.
Outra versão (impossível confirmá-la): deu à costa, sim, no dia da morte de Tales de Mileto, mas intacta, tanto na carne como na alma; isto é: viva, absolutamente viva; apenas envelhecida 25 anos, cabelos brancos, rugas.
Terá mesmo sido ela a tratar dos preparativos para a condução de Tales à sua última morada. Como uma simples criada, prestável.
Esta versão faz de Lianor uma trocista sádica: foram ouvidas gargalhadas nas horas do enterro mais triste da cidade de Mileto.»

Gonçalo M. Tavares

[Conto publicado na (extinta) revista Vida Mundial – n.º 19, Agosto de 1999]

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