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“A invenção de Morel”

Julho 17, 2009

«Hoje, nesta ilha, aconteceu um milagre. O Verão chegou cedo. Pus a cama perto da piscina, e fiquei a tomar banho até tarde. Impossível dormir. Dois a três minutos cá fora bastavam para transformar em suor a água que me devia proteger do calor imenso. De madrugada, um fonógrafo acordou-me. Não tive tempo de voltar ao museu a buscar as minhas coisas. Fugi pelas ravinas. Estou nas terras baixas do sul, entre as plantas aquáticas, exasperado pelos mosquitos, com o mar ou riachos lamacentos até à cintura, pensando que precipitei absurdamente a minha fuga. Creio que aquela gente não vinha à minha procura; pode ser até que não me tenha visto. Mas sigo o meu destino. Desapossado de tudo, estou confinado ao lugar mais estreito, mais inóspito da ilha, aos pântanos que o mar cobre uma vez por semana.
Escrevo estas linhas para deixar um testemunho do milagre adverso. Se dentro de poucos dias não morrer afogado, ou em luta pela minha liberdade, espero escrever a Defesa perante os Sobreviventes e um Elogio de Malthus
(…)
A invenção de Morel [La invención de Morel], Adolfo Bioy Casares (Tradução de Miguel Serras Pereira, Ed. Antígona)

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