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“Crime e castigo”

Junho 16, 2009

“Ao entardecer de um dia muito quente de inícios de Julho, um jovem saiu do cubículo que subalugara na ruela S… e pôs-se a caminhar lentamente, como que indeciso, na direcção da ponte K…
Foi sorte ter evitado o encontro com a senhoria nas escadas. O cubículo era na água-furtada de um prédio alto, de quatro andares, e parecia mais um armário do que um compartimento. Pois bem, a senhoria que lhe subalugara o cubículo, com almoço e serviço incluídos, ocupava o andar situado abaixo dele um lanço de escadas e, sempre que acontecia o jovem sair para a rua, era inevitável passar ao lado da cozinha dela, com a porta quase sempre escancarada para o patamar. De cada vez que passava diante daquela porta, o rapaz tinha uma sensação cobarde e malsã que o envergonhava, e franzia a cara. Devia muito à senhoria, receava dar de caras com ela.
Não por ser pusilânime e assustadiço, pelo contrário; mas havia uns tempos que andava assim, num estado tenso, irritável, como na hipocondria. De tal modo se ensimesmara e isolara de toda a gente que já tinha medo de qualquer encontro, e não só com a senhoria. Pesava-lhe a pobreza, esmagava-o; contudo, até essa situação de aperto deixara de incomodá-lo, ultimamente. Deixou de tratar do dia-a-dia, nem queria pensar nesses problemas.”
(…)
Crime e castigo [Prestuplénie i Nakazánie], Fiódor Dostoiévski (Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Ed. Presença)

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