Andamos a brincar
Nem é pelo valor dispendido, mas para que raio é que o Banco de Portugal precisa de um carro de golfe? Será para transporte de notas? Humm, da forma que as coisas estão, uma simples mochila seria suficiente.
Águia enfrenta dragão
« “Ele está longe; vejo-lhe o perfil a andar por um estreito caminho. Aonde irá com aquele passo pesado? Nem ele o sabe… No entanto, creio que não estou a dormir: quem será aquele que se aproxima e vai ao encontro de Maldoror? Como é grande o dragão… maior que um carvalho! Dir-se-ia que as suas asas esbranquiçadas, unidas por fortes ligamentos, têm nervos de aço, tal a facilidade com que cortam o ar. O seu corpo começa por um busto de tigre e acaba numa longa cauda de serpente. Não estava habituado a ver destas coisas. Mas que tem ele na testa? Está lá escrita numa língua simbólica uma palavra que não sou capaz de decifrar. Com um último golpe de asa juntou-se àquele cujo timbre de voz conheço. Disse-lhe: ‘Esperava-te, e também tu me esperavas. Chegou a hora; eis-me aqui. Lê-me na testa o meu nome escrito em sinais hieroglíficos’. Mas ele, mal viu chegar o inimigo, transformou-se numa águia imensa e prepara-se para lutar, dando estalidos de contentamento com o bico curvo, querendo dizer com isso que por si só se encarrega de comer a parte posterior do dragão. Ei-los que traçam círculos de concentricidade cada vez menor, espiando os seus recíprocos movimentos, antes de lutarem; fazem bem. O dragão parece-me mais forte; gostava que conquistasse a vitória sobre a águia. Vou experimentar grandes emoções, neste espectáculo em que está comprometida uma parte do meu ser. Ó poderoso dragão, eu te incitarei com os meus gritos, se for necessário, pois é do interesse da águia ser vencida. Por que esperavam eles para se atacarem? Estou em transes de morte. Vá lá, dragão, começa, primeiro tu, ataca. Acabas de lhe vibrar um seco golpe com as garras; não está lá muito mal. Garanto-te que a águia o sentiu; o vento leva-lhe a beleza das plumas, manchadas de sangue. Oh! a águia arranca-te um olho com o bico, e tu apenas lhe tinhas arrancado a pele; era preciso estar com atenção a isso. Bravo, vinga-te, e parte-lhe uma asa; não há nada a dizer, os teus dentes de tigre são muito bons. Se te pudesses aproximar da águia, enquanto ela volteja no teu espaço, descendo para o campo! Estou a notar que esta águia inspira moderação mesmo quando cai. Agora que está no chão e não poderá tornar a levantar-se. Vai a voar à flor da terra à volta dela, e com golpes da tua cauda de escamas de serpente acaba com ela, se puderes. Coragem, belo dragão; crava-lhe as tuas garras vigorosas, e que o sangue se misture ao sangue, para formar regatos onde não haja água. É fácil dizer, mas não de fazer. A águia acaba de meditar um novo plano estratégico de defesa, tornado possível pelos malfadados acasos desta memorável luta; é prudente, ela. Sentou-se solidamente numa posição inabalável, na asa que lhe resta, nas duas coxas e na cauda que antes lhe servia de leme. Desafia esforços mais extraordinários do que aqueles que até agora lhe opuseram. Umas vezes volta-se tão depressa como o tigre, sem mostrar cansaço; outras, deita-se de costas, com as patas para o ar, e, com sangue-frio, contempla ironicamente o adversário. No fim de contas hei-de saber quem será o vencedor; o combate não pode eternizar-se. Imagino as consequências que disto resultarão! A águia é terrível e dá saltos enormes que abalam a terra, como se fosse levantar voo; mas sabe que isso lhe é impossível. O dragão não se fia; julga a cada momento que a águia vai atacá-lo pelo lado onde lhe falta o olho… Pobre de mim! É isso mesmo que acontece. Como é que o dragão se deixou apanhar pelo peito? Em vão utiliza a força e a astúcia; estou a ver a águia, colada a ele por todos os seus membros como uma sanguessuga, e que, apesar dos ferimentos que vai sofrendo, crava o bico cada vez mais fundo, até à raiz do pescoço, no ventre do dragão. Só se lhe vê o corpo. Parece estar à vontade; não tem pressa de sair. Está com certeza à procura de alguma coisa, enquanto o dragão de cabeça de tigre solta bramidos que acordam as florestas. Lá está a águia a sair daquela caverna. Ó águia, como estás horrível! Estás mais vermelha do que um charco de sangue! Embora segures no bico nervoso um coração palpitante, estás de tal modo coberta de feridas que mal te podes suster nas patas emplumadas; e cambaleias sem abrires o bico, ao lado do dragão que morre em medonhas agonias. Foi difícil, a vitória; mas não importa, foste tu que a conquistaste: ao menos, diga-se a verdade… E ages segundo as normas da razão, agora que te despojas da forma de águia, enquanto te afastas do cadáver do dragão. E assim venceste, Maldoror! Assim venceste a esperança, Maldoror! A partir de agora, o desepero há-de alimentar-se da tua substância mais pura! A partir de agora, voltas, em passos decididos, para a carreira do mal! Embora eu esteja, digamos assim, insensibilizado à dor, o último golpe que vibraste no dragão também em mim se fez sentir. Avalia tu mesmo como eu sofro! Mas fazes-me medo. Olhem, olhem ao longe, aquele homem a fugir; sobre ele, ó terra excelente, estendeu a maldição da sua folhagem densa, ele é maldito e maldiz. Até onde levas tu tuas sandálias? Aonde vais, hesitante como um sonâmbulo em cima de um telhado? Que o teu perverso destino se cumpra! Adeus Maldoror! Adeus até à eternidade, onde não nos encontraremos os dois!”»(pp. 97-99)
Cantos de Maldoror [Les chants de Maldoror], Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont (Tradução de Pedro Tamen, Ed. Fenda)
Revolucionário underwall
«Com o passar dos anos, algumas das casas pintadas por ele, ou onde colocou papel de parede, precisaram de ser novamente remodeladas, o que implicou a remoção de todo o seu trabalho. Descobriu-se então que, em variadíssimas ocasiões, antes de começar a colocação do papel, ele escrevia com a sua maior trincha mensagens nas paredes: LUCRO É MERDA. OS POBRES VÃO PARA O CÉU. VIVE LA JUSTICE!» (pp. 198)
Aqui nos encontramos, John Berger (Tradução de Isabel Leite da Silva, Ed. Civilização)
O Deserto Vermelho
“Il Deserto Rosso” (1964), Real. Michelangelo Antonioni
Chicken chic
“Comissão Europeia processa Portugal por não proteger as galinhas poedeiras” (aqui) Acho muito bem.
Repare-se neste belo naco de prosa:
(…) que ”todas as galinhas poedeiras sejam mantidas em ‘gaiolas melhoradas’, com mais espaço para fazer ninho, esgravatar e empoleirar se, ou em sistemas alternativos”. Estas gaiolas têm de prever “para cada galinha, pelo menos 750 cm² de superfície da gaiola, um ninho, uma cama, poleiros e dispositivos adequados para desgastar as garras, que permitam às galinhas satisfazer as suas necessidades biológicas e comportamentais”, refere a Comissão.
O pessoal lá na referida Comissão diverte-se à brava.
- Amanhã vamos tratar de quê?
- Da criação de minhocas em cativeiro.
- Boa, vai ser um dia em cheio.
O amor aos livros é sempre correspondido
“The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore”
Simplesmente maravilhoso!
Inspired, in equal measures, by Hurricane Katrina, Buster Keaton, The Wizard of Oz, and a love for books, “Morris Lessmore” is a story of people who devote their lives to books and books who return the favor.
[via Bruno Sousa Villar]
Supõe que tinhas de escolher um epitáfio?
«Supõe que tinhas de escolher um epitáfio?, pergunta ela.
Se tivesse de escolher um epitáfio, escolheria O Cavaleiro Polaco, respondo eu.
Não podes escolher um quadro para epitáfio!
Não posso?
(…)
Adoro o quadro O Cavaleiro Polaco tanto quanto uma criança, pois é o princípio de uma história contada por um velho que já vira muitas coisas e que nunca queria ir para a cama.
Adoro o cavaleiro tanto quanto o adoraria uma mulher: a sua fibra, a sua insolência, a sua vulnerabilidade, o vigor das suas coxas.» (pp. 158)
Aqui nos encontramos, John Berger (Tradução de Isabel Leite da Silva, Ed. Civilização)
[imagem: Rembrandt, "O Cavaleiro Polaco" (1655) @ The Frick Collection, New York]
Aqueles que acreditam que estão a fazer história
«Liz, como aristocrata que era, pediu emprestado o passado, e eu pedi emprestado um futuro revolucionário.» (pp. 156)
«(…) estavas viciado em fazer história, e resolveste ignorar que aqueles que acreditam que estão a fazer história já têm as mãos no poder, ou imaginam ter as mãos no poder, e esse poder, tão certo como a noite, Met, confundia-os! Passado um ano ou por aí e já não sabiam o que estavam a fazer.» (pp. 157)
Aqui nos encontramos, John Berger (Tradução de Isabel Leite da Silva, Ed. Civilização)
Angola não é nossa, mas faz mossa
Continuamos a regredir.
«Uma crónica crítica em relação a Angola, do jornalista Pedro Rosa Mendes, terá levado a RDP a acabar com o espaço de opinião “Este Tempo”, da Antena 1.» (aqui)
Foi-me dito que a próxima seria a última porque a administração da casa não tinha gostado da última crónica sobre a RTP e Angola (…) A ser verdade, esta atitude é um acto de censura pura e dura. Ouvir a crónica aqui.
ver também aqui, sobre a última crónica de PRM]
Bárbaros à civil
Contaram-me que este episódio se passou durante o período da recruta com alguém que cumpria o Serviço Militar Obrigatório. Decorria a tradicional semana de campo, actividade habitual neste tipo de obrigatoriedades. Farto de obedecer às constantes ordens do instrutor e dos exercícios propostos – o mais famoso era o “queda na máscara” que consistia em atirar-se rapidamente para o chão à dita ordem -, um recruta, num momento de pura inspiração, levanta-se após o tal repentino mergulho para o matagal, atira a arma violentamente para o chão e diz: “Foda-se, não brinco mais. Vou-me embora.” Virou costas e caminhou calmamente em sentido contrário.
Regularmente convém lembrar às mentes mais torpes de como tudo isto começou. A traço grosso e saltando etapas. Os povos após terem vivido durante milhares de anos em grupos mais ou menos reduzidos e depois de abandonarem uma vida de nomadismo misto de transumância, fixaram-se numa determinada área. Contudo, continuaram a viver em pequenos grupos bastante separados uns dos outros, consumindo apenas o que produziam: agricultura e pecuária rudimentar. Sempre que alguns dos grupos vizinhos passava um período de fome atacava o outro. O mais forte e astuto (e muitas vezes desonesto) vencia. Era a barbárie. Cada um pensava apenas em si e na sua sobrevivência. No entanto, grupos houve que se concentraram num único local, viviam muito mais próximos uns dos outros, aumentando assim a sua capacidade de defesa. Como não podiam produzir todos os mesmos produtos, as profissões foram-se diversificando e especializando, a economia deixou de ser troca por troca, criou-se uma moeda para esse efeito, apareceram os impostos que seriam aplicados no melhoramento desse espaço e na defesa dos seus habitantes, ou seja, surgiram as cidades. Deu-se assim início à civilização. Por esta altura, decidiu-se também que seria necessário eleger os representantes dessa população e que estes ficariam encarregues de gerir, administrar, aplicar a justiça, organizar a defesa desse espaço e de todas as outras questões que fossem surgindo diariamente. A Pólis muito basicamente surgiu assim: da necessidade de governar o espaço público, a cidade, isto é, a civilização. Ora, quando esses representantes/governantes não aplicavam os impostos ao serviço da comunidade, mas pelo contrário, era utilizado em causa própria, era o caminho para a barbárie. A cidade ficava mais sujeita a ataques exteriores, a própria população ia deixando de se identificar com os seus representantes. Era mais fácil para os seus inimigos invadir e ocupar esse território. As consequências mais nefastas dessa invasão sobravam sempre para os mais desprotegidos.
O que se está a passar em Portugal não é assim muito diferente. Vivêssemos nós uns séculos atrás e seria muito fácil a um qualquer país ocupar este rectângulo. A população não reconhece qualquer legitimidade aos seus representantes. Deixaram de governar para o seu povo (que o elegeu) e passaram a governar para uns quantos poucos. Ora, quando nos tentam incutir a competitividade como modelo, por outras palavras, vence o mais astuto, o mais forte e, o mais das vezes, o mais desonesto, caminhamos a passos largos para a barbárie referida anteriormente. A civilização floresceu, porque todos cuidavam de todos, mas quando apenas se cuida dos mais fortes, regredimos historicamente para o período selvagem. O mesmo acontecerá à Europa como espaço organizado numa União. Desta forma, quebrar-se-ão os elos que unem os povos que a compõem. Vencerá o mais forte. Mas como vivemos numa economia global, o mais forte na Europa não sairá vencedor. Neste planeta global existem outros mais fortes. De momento, os ventos sopram de Oriente que não tem histórica, nem culturalmente, qualquer afinidade com os povos europeus. Quando defenderem a competitividade como modelo, não se esqueçam que o mercado é global, já deixou de ser local ou regional. A escolha é simples: a civilização ou a barbárie. E muito cuidado com os bárbaros que trajam à civil.
Como é belo salvar a vida a alguém!
«O Sena arrasta um corpo humano. Nestas circunstâncias, o rio toma ares solenes. O cadáver inchado mantém-se à superfície, desaparecendo sob o arco de uma ponte, mas, mais adiante, lá o vemos reaparecer outra vez, rodando lentamente sobre si próprio, como uma mó de moinho, mergulhando de vez em quando. O mestre de um barco, com uma vara, consegue enganchá-lo ao passar, e trá-lo para terra. Antes de levarem o corpo para a Morgue, deixam-no por algum tempo na margem para o trazerem à vida. A multidão compacta reúne-se em volta do corpo. Aqueles que não conseguem ver por estarem atrás empurram o mais que podem os que estão à frente. Todos dizem: “Não era eu que me afogava.” Lamentam aquele jovem que se suicidou, mas não o imitam. E, no entanto, ele achou muito natural matar-se, vendo que nada na terra o podia contentar e aspirando a mais alto. Tem um ar distinto e vestuário rico. Terá dezassete anos? É o que se chama morrer novo! A multidão paralisada continua a deitar-lhe olhos imóveis… e faz-se noite. Todos se retiram silenciosamente. Ninguém ousa virar o afogado para lhe deitar a água que lhe enche o corpo. Têm medo de que os julguem sensíveis, e ninguém se mexeu, entricheirado no colarinho da camisa. Vai-se um a assobiar acidamente uma tirolesa absurda; outro dá estalos com os dedos como castanholas… Atormentado pelos seus sombrios pensamentos, Maldoror, no seu cavalo, passa perto daquele sítio, à velocidade do relâmpago. Vê o afogado, e basta. Deteve imediatamente o corcel e desceu do estribo. Ergue o jovem sem repugnância e faz-lhe vomitar a água abundantemente. Quando pensa que aquele corpo inerte lhe poderia reviver nas mãos, sente um salto no coração com essa impressão excelente, e redobra de coragem. Vãos esforços! Vãos, disse eu, e é verdade. O cadáver continua inerte, e deixa-se virar em todos os sentidos. Esfrega as têmporas; fricciona-lhe este ou aquele membro; durante uma hora respira-lhe na boca, apertando os seus lábios contra os do desconhecido. Parece-lhe finalmente sentir, debaixo da mão encostada ao peito, um leve bater. O afogado vive! Naquele momento supremo, foi possível notar que várias rugas desapareceram do rosto do cavaleiro e o rejuvenesceram dez anos. Mas infelizmente as rugas voltarão, talvez amanhã, talvez logo que se afastar das margens do Sena. Entretanto, o afogado abre os olhos baços, e, com um sorriso descorado, agradece ao seu benfeitor; mas está ainda fraco e não pode fazer qualquer movimento. Como é belo salvar a vida a alguém! E como esse acto resgata os erros!» (pp. 81-82)
Cantos de Maldoror, Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont (Tradução de Pedro Tamen, Ed. Fenda)
Uma livraria exclusivamente dedicada à poesia
“Tantas Páginas é uma iniciativa do Teatro Académico de Gil Vicente e do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra.” Uma iniciativa a reter, portanto.

Do respectivo blogue vale a pena ler, por exemplo, esta entrevista ao Changuito da Poesia Incompleta:
Desde a Grécia, disse-me gente sábia, que se fala na crise do teatro. Mal ou bem, o teatro continua sendo feito e visto. O mesmo se passa e passará com a poesia, a sua edição e o seu consumo.
Micro-editoras é um termo curioso, não sei se justo, e que revela mais quem dele fala do que quem o faz. A Mariposa Azual imprime 300 exemplares, às vezes 500 exemplares, de uma primeira edição. Se compararmos com as inglesas Faber & Faber ou a Penguin, ou as espanholas Visor ou Hiperión, que, às vezes, imprimem 1000 exemplares, não me parece uma tão grande desproporção. Pelo contrário, acho até estranho primeiras tiragens portuguesas assim.
Há editores maravilhosos, uns assim já para o assado, e outros militantemente merdosos.
Ler na íntegra aqui.
Em que ficamos?
Um presidente, um governo, uma maioria. Era óbvio que ia dar merda.
O Presidente da República, Cavaco Silva, defendeu neste sábado, em Santo Tirso, a necessidade de “reter os mais jovens” nas suas terras para que “não sejam tentados a ir para outras paragens ou mesmo para o estrangeiro”. (aqui)
Problemas de capital?
Coitadinho do Calimero: “Cavaco diz que as reformas dele não chegarão para pagar despesas“
E para agravar a situação, é mentira. Ganha cerca de 10 mil. Canalha.
“O Eclipse”
“L’Eclisse” (1962), Real. Michelangelo Antonioni
Sobre este filme é melhor não escrever nada.
Apenas deixar que o vento passe entre o silêncio das palavras.
Why do we ask so many questions? Two people shouldn’t know each other too well if they want to fall in love. But, then, maybe they shouldn’t fall in love at all.
1+1=2
“Há vários países que deixaram de pagar a dívida e não foi assim tão mau”
(Joseph Stiglitz, prémio Nobel da Economia em 2001 e antigo vice-presidente do Banco Mundial.)
Os fundos que eram aplicados no serviço da dívida, que iam para o estrangeiro, podem passar a ser usados na economia, no próprio país, desde que haja um excedente primário [saldo antes de incluir as despesas com juros]”, afirmou Stiglitz. Os contribuintes portugueses gastaram o ano passado perto de 7,3 mil milhões de euros com os juros da dívida pública, valor que este ano deverá atingir os 8,8 mil milhões de euros. Sem estes juros, e segundo o relatório do Orçamento do Estado para 2012, o corrente ano seria o primeiro em que se verificaria “um saldo primário positivo de 0,7% do produto interno bruto (PIB).
Reduzir salários só agrava a crise” (…) apesar de defender que “deve haver mais flexibilidade laboral” na Europa, lançou um alerta: “No entanto, isso às vezes é baixar salários em linguagem codificada. (…) “a austeridade nunca resultou na resolução dos problemas económicos”.
Portugal has banned Dr. Strangelove
Foto da exposição sobre Kubrick na Cinemateca Francesa.
Com música.
(A ironia: retirei esta foto do facebook e não me lembro do autor. Se alguém souber, agradecia. É que agora não me apetece sopa nem levar com uma pipa em cima.)
No seguimento do post anterior e coiso e tal…
O Marco Santos (não, não, este é outro) do blogue Bitaites transcreveu para linguagem analógica o que se está a passar com as sopas e as pipas e o raio que as parta. Se mesmo assim houver alguém que não perceba, está feito ao bife.
Só há ali uma frase que me levanta dúvidas e que me leva quase, quase, a apoiar a sopa: “Foi a cantar covers no YouTube que Justin Bieber começou a ser conhecido”. A SOPA não terá efeitos retroactivos?
Stop SOPA e PIPA
Antiga Ortografia
«Fulano escreve “de acordo com a antiga ortografia”, diz o aviso que acompanha estas crónicas. Eu agradeço que o “Expresso” me permita a objecção de consciência face ao chamado Acordo Ortográfico, e percebo que indique quem segue ou não as novas regras, para evitar confusões; mas suspeito que esta fórmula foi inventada por alguém que pretende colar aos dissidentes o vocábulo “antiga”, como se nós escrevêssemos em galaico-português. Como se a língua que a maioria dos portugueses ainda usa se tornasse por simples decreto “antiga”: antiquada, decrépita, morta.
Eu não sou pela “antiga ortografia” por caturrice. Estou contra o “acordo” porque me parece uma decisão meramente política e económica, sem verdadeiro fundamento cultural. Os legisladores impuseram aos falantes uma “ortografia unificada”, que, dizem, garante a “expansão da língua” e o seu “prestígio internacional”. Mas a expansão da língua passa por uma política da língua, que Portugal, por exemplo, não tem tido, ocupados que estamos em fechar leitorados no estrangeiro, em aplicar uma abominável terminologia linguística nas escolas, em publicar um lamentável Dicionário da Academia, em expulsar Camilo dos currículos enquanto o substituímos por diálogos das novelas. Quanto ao prestígio internacional, lamento informar que foi o sucesso económico, e não a “língua de Camões”, que transformou o Brasil numa potência.
Não é este “acordo” que vai trazer expansão e prestígio ao português. Contenta uns “acadêmicos espertos e parlamentares obtusos”, como escreveu um colunista brasileiro, e alguns editores, que têm bom dinheiro a ganhar com esta negociata. Mas é difícil imaginar que alguém acredite que vem aí uma “unificação da língua” só porque se legislou uma “unificação da grafia”. Um brasileiro continuará a falar uma língua muitíssimo diferente do português de Portugal, diferente em termos de léxico, de sintaxe, de fonética. Um português, com um exemplar do Acordo debaixo do braço, bem pode perorar em Iraguaçu, que alguém lhe continuará a perguntar “oi?”, pois não percebeu metade. E isso não tem problema algum, a “lusofonia” não vale pela unidade mas pela diversidade, pelo facto de haver um português europeu, africano, americano e asiático. E ninguém é dono da língua: nem os brasileiros por serem mais, nem os portugueses por andarem cá há mais tempo, muito menos uns académicos pascácios que dicionarizaram “bué” e “guterrismo”.
É significativo que o próprio “acordo” reconheça o fracasso do projecto de “unificação a língua”. Dadas as flagrantes diferenças entre o português e o brasileiro, os sábios são obrigados a admitir a existência de duplas grafias, uma cá, outra lá [África, para estes iluministas, é paisagem]. Pior ainda, introduzem uma “grafia facultativa” que estabelece como termos lícitos tanto “electrónica” como “eletrónica”, “electrônica” ou “eletrónica”. O linguista António Emiliano deu-se ao trabalho de enumerar em livro os erros, contradições, imprecisões e dislates desta lei iníqua. Leiam-no. E não digam que ninguém avisou.
A minha recusa deste “acordo” não é casuísta nem temperamental. Não se trata apenas de não gostar de ver os espectadores transformados em bandarilheiros “espetadores”; de não perceber como é que os habitantes do “Egito” não são “egícios”; de ficar estupefacto com o “cor-de-rosa” com hífen e o “cor de laranja” sem hífen; de prever os imparáveis espalhanços de um “pára” do verbo “parar” que perde o acento e talvez o assento. É isso mas é mais que isso: eu discordo veementemente do critério fundamental do “acordo”: a primazia da fonética sobre a ortografia.
É verdade que todos falamos antes de sabermos ler e escrever, mas quando aprendemos essas competências sofisticadas interiorizamos uma língua diferente da falada, que nalguns casos nem tem exacta correspondência fonética mas que se liga a uma memória histórica e cultural. Quando aprendemos a ler, fixamos a forma gráfica das palavras, uma forma que memorizamos e que nos acompanha a vida toda, de modo que nunca mais lemos letra a letra, mas reconhecemos de imediato uma grafia aprendida há muito, “antiga”, sim, muito antiga. A ortografia não é uma transcrição fonética, nem podia ser, dadas as variantes do português falado. Ou nas pronúncias regionais. Como escreveu Emiliano, não vamos criar uma “ortografia do Alto Minho” só porque a pronúncia de Caminha é diferente da pronúncia de Cascais. Ou de Curitiba.
E não me digam que são pouquíssimas as palavras alteradas: procure quantas vezes neste jornal aparece ação, ator, atual, coleção, coletivo, diretor, fato, letivo, ótimo, e repare que são algumas das mais usadas. É por isso que o cavalo de Tróia das “consoantes mudas” deve ser denunciado. Em primeiro lugar porque não são mudas coisíssima nenhuma: abrem as vogais precedentes, e numa língua danada por fechar vogais. Depois, porque não são inúteis, ajudam a distinguir termos homógrafos e indicam a etimologia de palavras afins. Fazem sentido, ao contrário do “acordo”.
Dizem os acordistas que a nova ortografia “simplifica” e “facilita a aprendizagem”. Toda a gente sabe o que significa “facilitar a aprendizagem”, e os resultados que isso deu no ensino. E se a intenção é “simplificar”, que tal escrevermos todos em linguagem de telemóvel? Por mim, continuarei antigo.» Pedro Mexia
(via Aldina Duarte)
[ler também aqui]














