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Sopas de cavalo cansado

Junho 18, 2013

acidente

«Numa véspera de feira parou à porta da taberna do Sapateiro uma leva de almocreves que vinha de longe com os machos muito carregados. Afonso, que era expedito e grande para a idade, depois de ajudar à descarga das bestas correu a trazer da cozinha para a rua os caldeiros em que a tia Elisa preparara as “sopas de cavalo cansado” que os almocreves tinham encomendado para que os animais se refizessem.
O garoto não conhecia aquilo e, curioso por natureza, cheirou, provou, soube-lhe bem, comeu uma mão cheia, comeu outra, e antes de se dar conta estava meio bêbedo. Também não era para menos, porque para cada animal misturavam-se no caldeiro dois pães dos grandes cortados aos bocados, um quilo de açúcar, vinho bastante para amolecer tudo e um copo grande de aguardente.
A iguaria deve-lhe ter despertado o desejo por um ovo e, aos tropeções, enquanto os que tinham visto zombavam dele, julgando que iria para algum palheiro a curar a carraspana, o desastrado meteu-se na capoeira.
Com o que não tinha contado era que, além das poedeiras, uma das galinhas tinha uma ninhada de poucos dias e ele, entontecido e com pressa de apanhar os ovos, deve-se ter descuidado. Já tinha pisado uns quantos pintainhos antes de se dar conta de que a galinha o atacava por lhe estar a matar a ninhada. Então perdeu a cabeça. Aquilo não ia somente dar a maior carga de porrada que já recebera dos pais, mas a galinha e os pintos eram dos tios e ele não sabia que remédio dar àquela desgraça.» (pp. 44-45)

Ernestina,  J. Rentes de Carvalho (Ed. Quetzal)

Santa-Rita

Junho 17, 2013

santa rita pintor

[wiki]

[imagem: História da arte brejeira]

Num final não vazio

Junho 14, 2013

Noiserv, “Palco do Tempo”

É o palco do tempo
Sem tempo a mais
São voltas às voltas
Por querer sempre mais

É um verso atrás
Um degrau que não viu
São curvas as rectas
Num final não vazio

É o palco do tempo
Sobre o tempo a mais
São voltas à espera
Que não vivendo mais.

E assim sucessivamente

Junho 13, 2013

Guy Debord

Isto saiu-me num comentário ali em baixo, mas resolvi trazê-lo para aqui:

Há cerca de umas semanas, a filha da Fatinha Felgueiras apresentou uma peça na RTP (convém lembrar, televisão paga pelos portugueses) onde se colocava a seguinte pergunta: “Quanto custam ao Estado os sindicatos?” Consequências? Bem, hoje, na rádio, já ouvi uma senhora muito exaltada dizer: “Os sindicatos não deviam fazer greve, porque é o Estado quem lhes paga os salários. Mais valia acabarem com eles.”

Outra. Diariamente ouvimos e lemos a populaça dizer que “os partidos são todos iguais, o que eles querem é tacho, não servem para nada”. Muito bem, continuemos.

Mais uma. Ultimamente é voz corrente alguns democratas defenderem a extinção do Tribunal Constitucional.

Mais outra ainda. Esta com mais defensores, são os que pretendem alterar a Constituição para “expurgar o socialismo“.

Finalmente. A imprensa vai sendo comprada por outros grandes democratas.

Concluindo. Vamos lá então fazer a vontade ao povo. Acabe-se com os sindicatos, os partidos, o Tribunal Constitucional, altere-se a Constituição e, finalmente, acabe-se com essa pouca vergonha que é a liberdade de imprensa. Ring a bell? Pois, voltamos a 1933, não é?

Se os Portugueses desistirem de votar, só tenho a dizer isto: adeus, até ao meu regresso. Ou como diria o João César Monteiro, “quero que os portugueses se fodam e assim sucessivamente”.

Junho 11, 2013

t

Cidadões, a adversidade sou eu

Junho 9, 2013

(c) Paulo Mendes

“Não esqueçamos que aquilo que Portugal sempre teve, (…) foi uma capacidade para, mesmo nos momentos cruciais, enfrentar e vencer as adversidades”.

Depois de um tipo ter dito, pelas terras da Gália, “O Estado sou eu”, coube-nos na rifa o chefe dos cidadões reconhecer que a grande adversidade que os Portugueses enfrentam, neste momento, é a existência de tal figura como último garante da democracia lusa. E pensar que tudo isto começou, mais coisa menos coisa, há 900 anos, num caso de violência doméstica. Quando chegar lá cima vou ter um “tête-à-tête” com o Afonso (Henriques).

[imagem: Paulo Mendes]

O fim da feira não é o fim da festa

Junho 9, 2013

foguetório

Este ano não há, mas

O FIM DA FEIRA NÃO É O FIM DA FESTA

Concordem: um aviãozinho a fazer piruetas e a deitar fumo colorido, um futebol, uma corrida de atletas, um comício, uma noite de São João, tudo isso conta para distrair e repousar.

Sabemo-lo nós, sabem-no os autarcas do Porto que, diligentes no descanso do espírito e na necessidade de divertimento dos portuenses, se mostram fiéis seguidores do Panem et Circenses dos imperadores romanos. O pão, infelizmente, terá cada um de ganhar o seu, mas jogos, festas, divertimentos, é com eles.
E assim, embora de mau grado, me vejo a concordar que a Câmara do Porto não apoie a Feira do Livro.
Raro anda ali multidão para encher uma bancada. Não se ouvem tambores, trombetas, castanholas ou apitos, foguete nenhum. Em vez de se agitar em festa, aquela gente ora caminha com o nariz em livros, ora demora nos escaparates, olhando como em transe. É povo que parece não ter aprendido a dar vivas, nem a agitar bandeiras, em vez de dar patadas de entusiasmo move-se com a calma de quem visita a igreja.
Será boato, mas já ouvi que boa porção dos que a visitam são atreitos a pensar pela própria cabeça e gostam de aprender, qualidades que levam à inquietação e daí ao descontentamento, à rebeldia.

Este era o começo. Ia-me inclinando para o jocoso, mas há risco em ser tomado à letra, melhor é entrar no assunto e, com simplicidade e respeito, inquirir dos senhores autarcas se, de facto, os cofres da edilidade portuense se encontram depenados a ponto de não haver neles a “migalha” com que contribuíam para Feira.
Acho duvidoso que assim seja. Antes quero crer que os livros, a leitura, a escrita, nem peso-pluma são nas decisões do município, devem-lhe parecer carolice de uns quantos, e que esses quantos melhor emprego dariam ao tempo indo ver aviõezinhos a fumegar.
Tanto como desprezo pela legítima vontade, e o direito dos cidadãos, em prosseguir actividades que lhes aumentem o conhecimento e enriqueçam o intelecto, semelhante atitude denota uma soberba de mandões à moda antiga, a do tempo em que uns poucos riscavam e o resto calava.
Calados já não ficamos, mas no mais pouco mudou, que para mal nosso a democracia ainda vai de muletas e a prepotência continua enraizada. Com o estafado argumento de que não há dinheiro, decide o autarca que a Feira do Livro não se realiza. Mas mostra ele as contas? Os cálculos que fez? Prova aos cidadãos a justeza do que decidiu?
Não mostra nem prova. Decide com arrogância ao gosto da própria vontade, ignorando o tempo em que vive. Porque poderá ter sido eleito pela maioria de uns, mas é sua obrigação atender ao interesse geral.
E as Feiras do Livro não interessam apenas a uns quantos carolas que gostam de ler, mas a todos os que anseiam por algo mais que o superficial, o passageiro. Interessam sobretudo aos jovens, para quem os livros são janela aberta para o conhecimento, a cidadania, a esperança de viverem numa sociedade harmoniosa nos direitos, nos deveres, no respeito do que contribui para o bem comum. Não se vê de imediato, mas as Feiras do Livro contribuem. J. Rentes de Carvalho

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