‘Kikujirô no natsu‘ (1999), Directed by Takeshi Kitano
with: Takeshi Kitano • Yusuke Sekiguchi • Kayoko Kishimoto
«Devo tê-la conhecido numa quinta-feira à noite, no salão de baile. Na manhã seguinte, após uma ou duas horas de sono, apresentei-me ao trabalho com um ar de sonâmbulo. O dia passou como um sonho. Depois de jantar, deitei-me no sofá e só acordei, completamente vestido, cerca das seis da manhã. Sentia-me inteiramente refeito, de coração puro e obcecado por uma ideia: tê-la, custasse o que custasse. Enquanto atravessava o parque a pé, debati comigo mesmo o género de flores que lhe deveria enviar com o livro que lhe prometera (Winesburg, Ohio). Ia a caminho dos trinta e três anos, a idade de Cristo crucificado, e abria-se à minha frente uma vida totalmente nova, se tivesse a coragem de arriscar tudo. A verdade, porém, é que não tinha nada a arriscar, pois encontrava-me no primeiro degrau da escada e não passava de um falhado em toda a acepção da palavra.»
(…)
Sexus, Henry Miller (Tradução de Adelino dos Santos Rodrigues, Ed. Livros do Brasil)
Em Dezembro de 2009, um ciclo imperdível na Cinemateca (fica em Lisboa):
Ciclo “Cinema e Jazz”
Let’s Get Lost (1988), de Bruce Weber
Paris Blues [Noites de Paris] (1961), de Martin Ritt
Shadows [Sombras] (1960), de John Cassevets
As Palavras e os Fios (1962), de Fernando Lopes
Belarmino (1964), de Fernando Lopes
Mickey One (1965), de Arthur Penn
Cabin in the Sky [Um lugar ao céu] (1943), de Vincent Minnelli
Anatomy of a Murder [Anatomia de um crime] (1959), de Otto Preminger
The Cotton Club (1984), de Francis Ford Coppola
Les Liaisons Dangereuses [Ligações perigosas] (1959), de Roger Vadim
Too Late Blues [Prisioneiros da noite] (1961), de John Cassevets
Ascenseur Pour L´Échafaud [Fim-de-semana no ascensor] (1958), de Louis Malle
Nota: Nos próximos dias irei acrescentar a esta lista mais alguns filmes onde o jazz também é protagonista, numa série intitulada “Jazz & Cinema”, assim como mais alguma informação sobre os filmes acima listados.
«Duas crianças acabam de nascer. Aleita-as uma loba. As crianças aconchegam-se à loba. As três abrigam-se sob um rochedo sobranceiro a um rio. No céu, lá em cima, vela um deus. Usa um grande escudo e, na mão direita, uma lança. Na cabeça, um elmo. Ao longe, meio escondida pelos arbustos que bordejam um rio, uma jovem procura-as. A loba mantém-se imóvel. O seu papel está prestes a terminar. As crianças vão ser entregues à sua mãe e os Fados poderão cumprir-se. A loba regressará à sua floresta, o deus dará por terminada a sua guarda e desaparecerá. As armas que usa indicam que não é outro senão Marte, o deus da guerra. Mas está ali para proteger, não para combater, a menos que apareça algum bandido que ameace as crianças.
Foi assim que tudo começou. Pelo menos, era o que se contava, há mais de dois mil anos, numa aldeiazinha de Itália, empoleirada numa colina, não longe de um rio de súbitas cóleras. Quando as suas águas, avolumadas pela tempestade, galgavam as margens, todo o vale formava um lago. Esta aldeia chamava-se Roma, ninguém sabe porquê. A história que a esperava iria marcar para sempre a dos homens.»
(…)
A alma romana, Pierre Grimal (Tradução de Telma Costa, Ed. Teorema)
‘Ghost Dog‘ (1999), Directed by Jim Jarmusch
with: Forest Whitaker • Tricia Vessey • John Tormey • Henry Silva
«A vida modifica-se rapidamente.
A vida modifica-se num instante.
Sentamo-nos para jantar e a vida, como a conhecemos, acaba.
A questão da autocompaixão.Foram estas as primeiras palavras que escrevi depois que aquilo aconteceu.»
(…)
“O Ano do Pensamento Mágico”, Joan Didion. (Tradução de Eduarda Correia, Ed. Gótica, Lisboa, 2006.)[Uma escolha de Carlos Azevedo]
UNKLE, ‘Heavy Drug’
«É curioso que os beneméritos da humanidade sejam pessoas divertidas. Pelo menos na América é com frequência este o caso. Quem quiser governar o país tem também de o entreter. Durante a Guerra Civil, as pessoas queixavam-se das anedotas de Lincoln. Talvez ele pressentisse que a seriedade estrita fosse bastante mais perigosa do que qualquer piada. Mas os críticos consideravam-no frívolo e o seu próprio Secretário de Estado o achava um brutamontes.
De entre os iconoclastas e ironistas que formaram os gostos e as mentes da minha geração, o mais proeminente era H. L. Mencken. Os meus amigos do liceu, leitores do American Mercury, seguiram atentamente o julgamento de Scopes, tal como Mencken o reportou. Mencken foi muito duro para com William Jennings Bryan e a Biblialândia e o Bobus Americanus. Clarence Darrow, que defendeu Scopes, representava a ciência, a modernidade e o progresso. Para Darrow e Mencken, Bryan, o Criacionista Especial, não passava de uma aberração das berças. Na linguagem da teoria evolucionista, Bryan era ramo morto na árvore da vida. O seu modelo monetário da prata livre era uma anedota – bem como a sua velha oratória de congressista. Idem para os enormes jantares ao estilo rancho do Nebraska que devorava. As suas refeições, disse Menken, foram a sua morte.»
(…)
Ravelstein, Saul Bellow (Tradução de Rui Zink, Ed. Teorema)
‘Les Amants du Pont-Neuf‘ (1991), by Leos Carax
with: Juliette Binoche • Denis Lavant
«O dia 2 de Março de 1903, trigésimo aniversário do seu nascimento, foi mau para o empregado de comércio August Esch. Pegara-se com o patrão e este foi tão lesto a agradecer-lhe que nem sequer tempo teve de pedir a demissão. Por isso o que mais o contrariava não era propriamente a perda do emprego, mas a falta de prontidão que tivera na resposta. E, no entanto, tanta coisa teria podido atirar à cara desse homem, um homem que tudo ignorava do que exactamente se passava no seu estabelecimento, que acreditava em tudo que lhe dizia um tal Nentwig, que nem sequer suspeitava de que esse tal Nentwig metia ao bolso comissões, logo que tinha oportunidade disso, ou melhor dizendo, que muito propositadamente fechava os olhos, o que fazia crer que esse tal Nentwig sabia qualquer coisa comprometedora. E que imbecil ele fora ao cair no laço que aquela gente lhe armara! Tinham-no acusado, em termos sujos, de um erro contabilístico, que, no fundo, não era erro nenhum, está claro, como saltava aos olhos. Mas esses dois indivíduos haviam-no presenteado com um tal sortido de invectivas que a cena degenerara numa estúpida troca de insultos, durante a qual, de súbito, se vira despedido. Com efeito de momento só lhe ocorrera a famosa citação de Götz, quando era certo que, presentemente, tinha na ponta da língua réplicas esmagadoras.»
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Os sonâmbulos (Vol. II) – Esch ou a anarquia, Hermann Broch (Tradução de Jorge Camacho, Ed. 70)
Ethav, ‘Sleep’ – Directed by Domestic Infelicity
«A multidão humana que deambulava ao ritmo descuidado de um vaguear estival pelos passeios intransitáveis da cidade milenária de Al Qahira, parecia acomodar-se com serenidade, até com um certo cinismo, à degradação incessante e irreversível que a rodeava. Dir-se-ia que todos estes passeantes estóicos sob a avalanche incandescente de um sol em fusão mantinham, na sua vagabundagem infatigável, uma benévola cumplicidade com o inimigo invisível que minava os alicerces e as estruturas de uma capital outrora resplandecente. Impermeável ao drama e à desolação, esta chusma de gente carreava uma espantosa variedade de personagens pacificadas pela sua ociosidade; operários sem trabalho, artesãos sem clientela, intelectuais desinteressados da glória, funcionários administrativos expulsos das repartições por falta de cadeiras, diplomadas pela universidade vergados ao peso da sua ciência estéril, enfim, os eternos trocistas, filósofos amorosos da sombra e da quietude que dela emana, para quem a deterioração espectacular da sua cidade tinha sido especialmente concebida para lhes aguçar o sentido crítico.»
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As cores da infâmia, Albert Cossery (Tradução de Ernesto Sampaio, Ed. Antígona)
‘L’Atalante‘ (1934), Directed by Jean Vigo
with: Jean Dasté • Dita Parlo • Michel Simon
«As crónicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia.
- A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo.
Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatómicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Se além dessas prendas, – únicas dignas da preocupação de um sábio, D. Evarista eral mal composta de feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto não corria o risco de preterir os interesses da ciência na contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.»
(…)
O Alienista, Machado de Assis (Ed. Ática)
‘The man who shot Liberty Valance‘ (1962), Directed by John Ford
with: John Wayne • James Stewart • Vera Miles • Lee Marvin
«Era uma noite divina, uma noite que só pode haver, querido leitor, quando somos jovens! O céu estava tão estrelado, tão límpido que, olhando para ele, nos podia escapar a pergunta: será possível viver sob este céu gente zangada e injusta? Jovem é também esta pergunta, querido leitor, muito jovem, mas oxalá Deus a mande mais vezes à tua alma!… Por falar de gente injusta e zangada, não poderia também deixar de me lembrar do meu lindo comportamento durante todo o dia que passou. Desde manhã que uma mágoa esquisita me começou a atormentar. De tão solitária que sou, parece que toda a gente me abandona e renega. Ora, qualquer um tem o direito, claro, de perguntar: mas quem é essa ‘toda a gente’? Porque eu vivo há oito anos em Petersburgo e ainda não arranjei praticamente nenhum conhecimento. Também, para que preciso eu de conhecimentos? Já sem isso conheço toda a Petersburgo; por isso me pareceu que todos me abandonaram quando Petersburgo em peso se levantou e se mudou de repente para a casa de campo. Comecei a ter medo de ficar sozinho e durante três dias vagueei pela cidade cheio de uma aflição profunda, sem perceber do que se estava a passar comigo.»
(…)
Noites Brancas, Fiódor Dostoiévski (Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Ed. Assírio & Alvim)
O blogue A Devida Comédia de Miguel Carvalho está a assinalar a passagem das 100 mil page views publicando textos de outros bloggers sob o tema ‘ “Ainda há futuros como antigamente?”. O resultado do convite que me foi lançado está aqui.
‘Le samouraï‘ (1967), Directed by Jean-Pierre Melville
with: Alain Delon • François Périer • Nathalie Delon • Cathy Rosier
«Encontraria a Maga? Vindo da rue de Seine, tantas vezes me tinha bastado passar pelo arco que dá para o Quai de Conti para avistar, assim que a luz cor de cinza e azeitona que flutua sobre o rio me permitia distinguir as formas, a sua silhueta esguia sobre a Pont des Arts, ora a andar de um lado para o outro, ora imóvel sobre o parapeito de ferro, debruçada para a água. E como era natural atravessar a rua, subir as escadas que dão para a ponte, entrar na sua cintura estreita e aproximar-me da Maga, que sorria sem surpresa, convencida como eu de que um encontro casual era a menor casualidade das nossas vidas e que as pessoas que marcam encontros a horas precisas são as mesmas que necessitam de papel pautado para se escreverem ou que apertam o tubo da pasta de dentes desde o fundo.
Mas agora ela não estaria na ponte. A sua face delicada de pele translúcida andaria a espreitar para lá dos velhos portões do gueto do Marais: talvez estivesse a falar com uma vendedora de batatas fritas ou a comer uma salsicha quente no Boulevard de Sébastopol. De qualquer das formas subi até à ponte, e a Maga não estava lá. Agora a Maga não estava no meu caminho, e ainda que conhecêssemos as nossas casas, cada canto dos nossos dois quartos de falsos estudantes em Paris, cada postal a abrir uma janelinha Braque, Ghirlandaio ou Max Ernest nas molduras baratas e em paredes de cores berrantes, nunca nos procurávamos um ao outro por lá. Preferíamos encontrarmo-nos na ponte, na esplanada de uma café, num cineclube, ou agachados junto a um gato nalgum pátio mais escondido do Quartier Latin.»
(…)
O Jogo do Mundo (Rayuela), Julio Cortázar (Tradução de Alberto Simões, Ed. Cavalo de Ferro)
‘Moments’, Directed by William Hoffman
«’Os vinte e quatro escravos negros da garbosa galé remavam, transportando o príncipe Amgiad até ao palácio do califa. Mas o príncipe, envolto na sua capa púrpura, jazia abandonado no convés, sob o azul profundo do céu estrelado. O seu olhar…’
Até aqui, a pequena lera em voz alta. Agora, os olhos fechavam-se-lhe, e os pais entreolharam-se, sorrindo. Fridolin curvou-se beijando-lhe os cabelos de oiro e fechou o livro pousado sobre a mesa, ainda por levantar. A menina ergueu o olhar como que surpreendida.
- São nove horas – disse o pai. – É tempo de ires para a cama.
Também Albertine se inclinou sobre a criança e as mãos de ambos, pai e mãe, tocaram-se ao afagarem-lhe carinhosamente a fronte. Com um sorriso meigo que já não visava apenas a pequena, os seus olhos encontraram-se. A ama entrou instando a pequena a desejar uma boa noite aos pais. Obediente, a miúda levantou-se e ofereceu-lhe os lábios, para receber o beijo de despedida de ambos. Depois, deixou-se conduzir docilmente pela mulher para fora da sala.
Sozinhos sob o brilho avermelhado da luz do candeeiro de tecto, Fridolin e Albertine sentiram-se impelidos a retomar o relato das experiências vividas no baile de máscaras do dia anterior, que haviam iniciado antes do jantar.»
(…)
A história de um sonho, Arthur Schnitzler (Tradução de Maria Paula Couto, Ed. Relógio D’Água)
‘Nuit Blanche’ – Directed by Arev Manoukian
«A noite passada sonhei que estava grávida.
Tinham de operar, cortar, porque as asas do bebé estavam ligadas às minhas entranhas.
O bebé não podia nascer, continuava dentro de mim, as asas ligadas à minha carne.»
(…)
“O Rosto de Deus”, Ana Teresa Pereira (Ed. Relógio D`Água)[Uma escolha de Raquel Costa)
N.A.S.A. feat. Tom Waits & Kool Keith, ‘Spacious Thoughts’
Directed by Fluorescent Hill
«No final do século XX, o jovem Montano, que acabava de publicar o seu perigoso romance sobre o enigmático caso dos escritores que renunciam à escrita, foi apanhado nas redes da sua própria ficção e converteu-se num escritor que, apesar da sua compulsiva tendência para a escrita, ficou totalmente bloqueado, paralisado, ágrafo trágico.
Nos finais do século XX – hoje, 15 de Novembro de 2000, para ser mais exacto –, visitei-o na sua casa de Nantes e, tal como esperava, encontrei-o tão triste e tão seco que bem se podiam aplicar a Montano uns versos de Pushkin e dizer que “vive errando / na penumbra dos bosques / com a novela perigosa”.
O melhor de tudo é que ao meu filho – porque Montano é meu filho – errar na penumbra dos bosques levou-o a recuperar uma certa paixão pela leitura, o que me beneficiou a mim, que, não há muito e por recomendação sua, li Prosa de la frontera propria, o romance que acaba de publicar Julio Arward, esse estranho escritor em quem nunca me fiara demasiado por julgar que simplesmente se divertia a ser o duplo do romancista Justo Navarro.»
(…)
O Mal de Montano, Enrique Vila-Matas (Tradução de Jorge Fallorca, Ed. Teorema)
Charlotte Gainsbourg & Beck, ‘Heaven Can Wait’
Directed by Keith Schofield
«Leves e de um azul metálico, movidas por uma brisa contrária suave, quase imperceptível, as ondas do Mar Adriático rolavam ao encontro da armada imperial, quando esta, tendo à esquerda as colinas rasas e cada vez mais próximas da costa calabresa, se dirigia para o porto de Brindisi e então, quando a solidão do mar cheia de sol, mas mesmo assim tão prenunciadora de morte, deu lugar à pacífica alegria da actividade humana, quando as águas, suavemente brilhantes com a proximidade da existência de homens e das suas casas, se povoaram de variadíssimos barcos, uns que também se dirigiam para o porto, outros que dalí saíam, então, quando os barcos de pescadores com as sua velas castanhas estavam precisamente a sair dos pequenos molhes de todas as inúmeras aldeias e povoações ao longo da orla salpicada de branco, para se dirigirem à sua pesca nocturna, então a água ficou quase tão lisa como um espelho; como uma madrepérola, abrira-se por cima a concha do céu, anoitecia, e sentia-se o cheiro a lenha das lareiras, sempre que o vento trazia os sons da vida, uma martelada ou um grito, desde a costa até ao mar.»
(…)
A morte de Virgílio, Hermann Broch (Tradução de Maria Adélia Silva Melo, Ed. Relógio D’Água)
Exterio, ‘L’omertà’ – Directed by Jessy Fuchs
«Sou um homem doente… Sou um homem mau. Um homem repulsivo, é isso que eu sou. Acho que tenho alguma coisa no fígado. De qualquer modo, não entendo que raio de doença é a minha, não sei ao certo o que me faz sofrer. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite a medicina e os doutores. Além do mais, é intolerável como sou supersticioso; enfim, o suficiente para respeitar a medicina. (Sou bastantemente instruído para não ser supersticioso, mas sou supersticioso.) Sim, é por maldade que eu não me trato. Aposto, meus senhores, que isso é uma coisa que não compreendeis. Mas eu, sim! Evidentemente, não serei capaz de explicar-vos a quem ando eu a tramar seguindo deste modo a minha maldade; sei perfeitamente que não ando a tramar os médicos quando recuso tratar-me; sou a pessoa mais bem colocada para saber que isso só a mim prejudica e a mais ninguém. Mesmo assim, se não me trato é por maldade. Dói-me o fígado. Tanto melhor, pois que me doa ainda mais!»
(…)
Cadernos do subterrâneo, Fiódor Dostoiévski (Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Ed. Assírio & Alvim)
‘La Haine‘ (1995), Directed by Mathieu Kassovitz
with: Vincent Cassel • Hubert Koundé • Saïd Taghmaoui













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